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Turismo em turbulência: Médio Oriente, céus fechados e oportunidade em Portugal

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18.03.2026

O turismo é, porventura, um dos setores mais expostos à instabilidade política e financeira. Todavia, é também um setor que tem dado provas consistentes de um elevado nível de resiliência. Os últimos anos foram férteis em exemplos de como o setor reage a fatores externos, a título de exemplo, a Covid-19, a guerra na Ucrânia, o conflito israelo-palestino e, nos últimos dias, a instabilidade no Médio Oriente.

Dados divulgados pela UN Tourism relativos a 2025 apontam para um crescimento acelerado da procura turística no Médio Oriente, tanto face ao período pré-pandémico como em relação a 2024. O ano de 2025 foi, portanto, um ano de crescimento/retoma para muitos dos destinos da região, com países como Israel e Egito a figurarem entre aqueles com maior crescimento quando comparado com 2024. Se comparado com 2019, destaque também para a Arábia Saudita, Bahrain e Catar. No mesmo documento da UN Tourism, o Médio Oriente surge também como uma das regiões com maior otimismo para os resultados de 2026.

Todo este otimismo e crescimento, ou retoma da normalidade, veem-se afetado pelos recentes conflitos bélicos. Têm sido reportados episódios de ataques e impactos disruptivos induzidos pelos conflitos em infraestruturas referência da região, como o Aeroporto Internacional do Dubai ou o Burj Khalifa. Os conflitos, mas também o facto de infraestruturas fundamentais da região serem afetadas, direta ou indiretamente, pela guerra, conduzem, naturalmente, a um sentimento de insegurança no potencial visitante. Desta forma, é expectável que nos próximos meses ou anos, de acordo com a duração e magnitude do conflito, a região sofra uma quebra significativa na procura turística. A agravar a situação da região e da mobilidade aérea global, está o facto do Dubai se ter tornado num hub fundamental nas ligações ocidente-oriente.

Menos visíveis ao público em geral, são as restrições do espaço aéreo, medida habitual no caso de conflitos armados. As restrições ao uso do espaço aéreo sobre o Irão, à semelhança do que acontece na Ucrânia, implicam custos acrescidos. Vão além de um problema logístico, representando um sorvedouro financeiro. Maiores distâncias significam mais combustível, o que, somado à volatilidade do barril de petróleo, ditará o aumento inevitável das tarifas. Prevê-se que os efeitos negativos sejam especialmente sentidos nos voos entre a Europa e a Ásia. Às limitações do espaço aéreo de algumas áreas, acresce o aumento significativo do preço dos combustíveis, fruto da cotação mais elevada do petróleo nos mercados internacionais e que, à data, já conduziram à quebra das ações de algumas companhias aéreas.

Este turbilhão irá, seguramente, afetar os destinos turísticos para lá das zonas de conflito. Os países asiáticos emergentes têm estado entre os grandes impulsionadores do turismo mundial na última década. Ainda que seja prematuro, é previsível que estas circunstâncias possam vir a influenciar o número de viagens entre os dois continentes a curto prazo. Porém, o grande perdedor desta contenda será, seguramente, o Médio Oriente com o compreensível cancelamento de viagens para a região que, segundo dados da UN Tourism, já tinha ultrapassado largamente os números pré-Covid-19 no que diz respeito às chegadas internacionais e receitas.

Onde fica Portugal no meio disto tudo? À semelhança do acontecido aquando da Primavera Árabe, Portugal pode assumir-se como “porto de abrigo”, surgindo como alternativa aos destinos do Médio Oriente e Mediterrâneo próximos do conflito. No último incluem-se países como Chipre, uma vez que é o país da União Europeia mais próximo do conflito. À questão geográfica acresce o facto de já ter registado um incidente no seu território.

Mas essa oportunidade não é automática. Exige capacidade aeroportuária, comunicação clara, resposta rápida dos intervenientes do setor e produtos turísticos ajustados. Num mundo instável, Portugal só será ‘destino-refúgio’ se vender o que hoje vale mais do que sol: previsibilidade.

Coordenador da Licenciatura em Gestão do Turismo no ISLA Gaia


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