Mudança Segura
Ninguém tem dúvidas de Marcelo Rebelo de Sousa ser um homem sério, inteligente, culto. Tentou fazer o melhor em Belém, impor temas que lhe eram caros, cortar umbilicalmente com o estilo abúlico do seu antecessor, Cavaco Silva, trazendo a sua afetividade e proximidade, mas a verdade é que muitas vezes emperrou a sua vontade com um excesso de declarações e comentários que retiraram ‘gravitas’ à imagem presidencial. A atração quase fatal por microfones e holofotes banalizou a força da sua palavra (que Cavaco Silva dizia dever ser rara em Belém) e depauperou a própria influência.
Uma coisa é a simpatia de quem lhe diz agora adeus ao abandonar o cargo, porque ao sair de cena - para lá das viúvas e viúvos que já anunciam as saudades que vamos ter dele - existe sempre uma maior condescendência na despedida. Outra, é analisar friamente a arena mediática e perceber como a vida política precisava de mais serenidade, contenção e silêncio. Porque a imprevisibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa era muito engraçada para alguns, contudo, trazia riscos de acartar instabilidades vãs. Para lá de acabar também agora outro dos fenómenos mais perturbadores da sua presidência: o bailado da ‘fonte de Belém’ que espalhou magia e em diversos momentos teve presença inusitada. O clímax dessa fonte, aquela manhã em que António Costa recebia João Galamba (ministro a ser arrasado por uma história do arco-da-velha que meteu ao barulho o seu gabinete) em São Bento e durante a conversa sai notícia com origem na dita fonte: «Marcelo quer demissão de Galamba». E o ministro ficou, Costa não podia decidir sob pressão de Belém, senão perderia credibilidade e força política. Mas viremos a página.
Agora é tempo de António José Seguro, como já sabíamos o antónimo de Marcelo. Pouco espetacular, mais cinzento, dizem, mas também muito menos irrequieto e ‘brincalhão’, acrescento eu. O som do seu silêncio é agradável e, todavia, não deixa de exercer corretamente - onde deve ser exercida primeiramente, na discrição da audiência com Luís Montenegro e depois publicamente, e raramente, a chamar a atenção com a sua palavra quando faz sentido - a sua magistratura de influência.
Já conseguiu que se retomassem as negociações na concertação social - e soubemos pela voz da ministra do Trabalho, sem que saísse qualquer notícia nos jornais -, continua a visitar as populações afetadas pelas tempestades sem fazer alarde e sem convocar a comunicação social, prova disso a ida a Alcácer do Sal esta semana.
Aguarda serenamente as indicações (e escolhas) dos nomes a ser votados no Parlamento para as 19 entidades que esperam acordo partidário para a sua nomeação, sendo certo que está atento a quaisquer desvios que ponham em causa os valores matriciais da nossa Constituição. A página virou para uma mudança Segura. Como diria a sua antiga Némesis, «habituem-se».
