A noite em que o país falhou
Entre-os-Rios. Há traumas que não se superam
O dia 4 de Março de 2001 ficará para sempre gravado na minha memória, e também na memória coletiva do país, como aquele dia em que a terra tremeu sem aviso e a água levou consigo vidas, histórias e futuros. A queda da ponte Hintze Ribeiro, que ligava o distrito do Porto, em Penafiel, ao distrito de Aveiro, em Castelo de Paiva, sobre o Rio Douro, matou 59 pessoas e marcou para sempre a nossa comunidade, o espaço regional onde nos inserimos e o nosso país.
Enquanto presidente da Câmara Municipal de Castelo de Paiva, vivi esse momento numa dimensão que é muito difícil traduzir em palavras. Não foi apenas uma tragédia pública, foi também uma dor íntima, coletiva e devastadora. Eu conhecia todos aqueles rostos, aquelas famílias e os seus percursos de vida. Naquela noite, não caiu apenas uma ponte em Portugal, ruiu um pedaço da nossa confiança na segurança das infraestruturas rodoviárias portuguesas e na capacidade do Estado de prevenir o previsível.
A ponte Hintze Ribeiro, vulgo a Ponte de Entre-os-Rios, cuja construção se iniciou em 1884, e foi inaugurada em 1887 era mais do que uma estrutura metálica erguida no século XIX, era também uma ligação fundamental entre duas margens, um símbolo de proximidade e de rotina.
Recordo o silêncio pesado que se abateu sobre o concelho, recordo os dias de buscas, a solidariedade nacional, internacional e a presença das mais altas figuras do Estado, foram dezanove em vinte e três dias. Recordo também a indignação, porque quando a dor é tão profunda, a exigência de justiça torna-se inevitável. E essa exigência não era apenas jurídica, era ética e política.
Mas passados estes anos, continuo a acreditar que a melhor homenagem que podemos fazer às vítimas da tragédia de 4 de Março de 2001, é a memória ativa. Não basta evocar o número, 59, é preciso lembrar que eram trabalhadores, estudantes, pais e mães, jovens e idosos que regressavam a casa depois de um dia de alegria.
A tragédia da Ponte Hintze Ribeiro deve pois permanecer como um alerta permanente contra a cultura do adiamento e da desresponsabilização. As obras públicas não são apenas betão e ação, são vidas que dependem da sua solidez.
E de uma vez por todas a Administração Central quando prometer como nos fez em 2001, tem de cumprir. E aqui chegados, vinte e cinco anos depois da tragédia, o território onde nos inserimos ainda não viu concretizadas, refiro-me às duas principais promessas que nos foram feitas pelo Governo de então e com uma recomendação da Assembleia da República, após 4 de Março de 2001, e que ainda hoje estão por cumprir, como seja a construção do IC35 entre a localidade de Entre-os-Rios e Marecos, em Penafiel (ligação à A4), e a Variante à EN 222, entre a Zona Industrial das Lavagueiras, em Pedorido e a A32, em Canedo, Santa Maria da Feira.
Falo hoje não apenas como antigo presidente de câmara, mas como alguém que partilhou o luto de uma terra inteira. A dor não desaparece com o tempo, transforma-se, torna-se memória, consciência e, espero, uma lição. Que nunca mais seja preciso perder 59 vidas para fazer o que tem de ser feito e para que o país compreenda que a prevenção é sempre menos onerosa, humana e financeiramente, do que a reparação.
Concluindo, o dia 4 de Março de 2001 não é apenas uma data, tem de ser um compromisso, com Castelo de Paiva, com a região do Tâmega e Sousa, com o País, com as vítimas e com um futuro, em que a responsabilidade pública esteja sempre à altura da confiança que os cidadãos depositam em quem os representa.
Antigo Presidente da Câmara de Castelo de Paiva
