Virtudes públicas, vícios privados
Domingo, 13 de setembroO canal NOW anuncia “novo formato” de Ireneu Teixeira, agora apenas à hora de almoço de domingos, ou seja, de horário nobre para horário pobre. De novo apenas o horário, porque o “formato” de Ireneu continua igual, um conspiracionista xenófobo que trabalha sobre pós-verdades sem qualquer contraditório para além das redes sociais que o corrigem. Um Irineu Teixeira que, pelo discurso inflamatório, sente na pele o facto de ter sido despromovido dos dias úteis da NOW para o horário mais inútil da televisão portuguesa, a sagrada hora de almoço de domingo, quando as famílias portuguesas finalmente desligam os televisores para conversarem umas com as outras.
Domingo, 13 de setembroA nova temporada do reality dos seniores da SIC, Casados à Primeira Vista, já vai na terceira semana de emissão, e até agora ainda não encontrei qualquer razão para deixar de ver o Big Brother All Stars na TVI, que está a ferro e fogo – apesar de ter deixado sair uma das personagens mais interessantes, a Teresa, concorrente de 58 anos que podia igualmente trazer ao canal um segmento de público mais sénior, não fosse ela habitualmente comportar-se como uma adolescente…No Casados, pelo contrário, a abrangência vinga, temos casais novos e velhos, há concorrentes cinquentões que se dizem influencers, o que significa que têm muito tempo livre, e depois temos um belo casal de jovens, a Bruna e o Micael, em que ele se comporta como um velho conservador, daquele tipo de pessoas que diz: “paremos de falar sobre mim, falemos sobre ti, afinal o que é que tu mais gostas em mim?”.Há sempre coisas muito giras a acontecer no Casados, mas nada é tão apelativo para o público como assistir à decadência e fragmentação das relações humanas criadas artificialmente por um programa de televisão. Para quem só agora aqui tenha aterrado, o Casados inverte a “ordem natural” dos relacionamentos, começando primeiro pelo contrato institucional de dois desconhecidos, que se encontram pela primeira vez no altar de um casamento, e depois são desafiados a concretizar romanticamente esse matrimónio na vida real, quase sempre acompanhados de câmaras de televisão.Como espectador, acho que a produção do programa se concentra excessivamente no idílio do casamento, ou na promessa do amor perfeito, e menos no conflito genuíno e autêntico dos noivos – seja imediatamente na lua de mel, uma espécie de realidade com álcool e açúcar, seja na partilha de vida real depois do regresso a Portugal, a tal ressaca do reality check.Talvez a SIC tenha dificuldade em gerir esses tempos reais porque muitos dos casos terminam logo a seguir à lua de mel, o que significa que o Casados fica sem material que lhe permita desenvolver o conflito dos noivos em território nacional, como aparentemente irá acontecer a um dos casais desta edição do reality, segundo indiciam algumas notícias da comunicação social.Também me parece estranho que a SIC não tenha capacidade para transformar o Casados numa bolha, impedindo assim que sejam reveladas cá para fora informações sobre a sorte dos casais. Muito do charme do programa reside nesta construção gradual de afetos – mas de que forma irão as audiências dedicar-se a estas personagens se, pela imprensa, já sabem que........
