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Uma cadela, um cancro e a AI

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29.03.2026

Há umas semanas, escrevi neste jornal uma crónica intitulada A revolução de AI chegou – e não estamos preparados a dar conta de que todas as tecnologias têm um impacto societal, mas que a revolução desencadeada pela Inteligência Artificial poderá não ter paralelo na história da humanidade.

Soa grandiloquente, bem sei. É-o deliberadamente. Quando os maiores pensadores do mundo nesta matéria, incluindo especialistas que desenvolveram a tecnologia, equacionam cenários em que a máquina superlativa ultrapassa o Homem, então o mínimo que isso nos deve exigir é atenção. Para lá do mínimo, inquietação.

Mas hoje não é tempo disso. A tecnologia, sobretudo nas mãos de alguém obstinado e bem-intencionado, também é capaz de feitos extraordinários. É esta a dualidade moral da vida terrena e da natureza do ser humano: o mesmo instrumento pode servir o bem ou o mal. Veja-se o caso da energia nuclear: bem usada, dá energia barata a milhões de pessoas por todo o mundo. Mal empregue, a mesma fissão nuclear pode ser usada como arma de aniquilação maciça.

O caso que agora relato é um bom exemplo da tecnologia usada para o bem. Algures em Sidney, na Austrália, uma cadela de busca e salvamento estava com um mastocitoma – um cancro maligno comum em cães. Chama-se Rosie. O seu dono, Paul, gastou milhares de dólares em quimioterapia e cirurgia, sem resultados auspiciosos.

A morte de Rosie seria o desfecho expectável – e não daria notícia nem crónica. Ocorre que Rosie tem um dono demasiado obstinado que não estava ainda preparado para aceitar o que parecia ser o destino (seria tal destino o seu verdadeiro destino?).

Com formação em ciência dos computadores e dos dados – e zero formação em biologia –, Paul pega no ChatGPT e pergunta-lhe o que pode fazer para ajudar a sua cadela. O ChatGPT sugere-lhe um caminho: sequenciar o DNA do tumor para identificar as mutações que causam o problema, e depois tentar desenvolver uma vacina imunoterapêutica à medida. Coisa pouca, portanto.

A esmagadora maioria das pessoas desistiria aqui, mas Paul não o fez. Dirigiu-se a um centro de investigação da Universidade de New South Wales e pediu essa sequenciação. Um processo impossível para um cidadão comum, mas perfeitamente acessível a investigadores com experiência. O que fazer com o resultado é que seria complexo, avisaram-no. Ao que Paul respondeu: «sem problema, sou um cientista de dados e eu lá descobrirei o que fazer com a ajuda do ChatGPT».

E assim foi. Munido da sequenciação, recorreu ao AlphaFold (outra ferramenta de AI) para identificar as proteínas que sofreram mutação. Identificadas as proteínas alteradas, restava ensinar o corpo a reconhecê-las como ameaça e a combatê-las.

É precisamente aqui que entra outra tecnologia: o mRNA, o mesmo que permitiu desenvolver as vacinas contra a covid-19 em tempo recorde. Paul continua a sua saga e novamente com o auxílio do ChatGPT desenvolve o programa para sequenciar a vacina. Este código é depois dado a uma equipa de genómica sediada na Islândia, pioneira em nanomedicina, que faz a síntese da vacina mRNA.

A vacina foi então administrada em três tomas e o tumor reduziu-se para metade, com um sucesso evidente e reconhecido por todos os especialistas. Não está curada, mas está visivelmente melhor. Tudo isto foi feito em menos de três meses, o prazo que o comité de ética demorou a conceder a autorização necessária para administrar a vacina.

Esta história parece ficção. É tão inverosímil que coloco aqui o artigo original . Tudo isto vai muito para além da Rosie e do seu dono, e abre um leque de investigação no desenvolvimento de vacinas contra o cancro para os próprios seres humanos. Quem diz cancro, diz outra doença qualquer. Nós, tanto decisores políticos como cidadãos, temos agora de zelar para que a tecnologia seja usada mais para histórias destas e menos para contribuir para a nossa autodestruição coletiva.


© SOL