A centelha da vida
Na Criação de Adão, de Miguel Ângelo, no teto da Capela Sistina (na imagem), o dedo de Deus aproxima-se do de Adão, formado do pó da terra e ainda inerte, num gesto que traduz visualmente o relato bíblico segundo o qual o Criador insuflou nas narinas do primeiro homem o sopro da vida.
Também a estátua de marfim esculpida por Pigmalião e transformada em mulher por intervenção de Afrodite; o golem, ser de barro que, na tradição judaica, é trazido à existência por rituais místicos; o homúnculo que Paracelso imaginou poder fabricar por processos alquímicos; e, na ficção de Mary Shelley, a criatura que Victor Frankenstein constrói a partir de partes de cadáveres e dota de existência com recurso à ciência exprimem o mesmo desejo: criar vida onde ela não existe.
Quando, em 1818, Shelley publicou Frankenstein, prevalecia ainda a ideia de uma força vital que animava os organismos e os distinguia do mundo inerte. Dez anos depois, Friedrich Wöhler veio abalar essa conceção ao sintetizar, a partir de compostos inorgânicos, ureia - um composto orgânico, isto é, pertencente a uma vasta classe de compostos de........
