Bloqueios
Nota prévia: Lançar um cocktail molotov para o meio de uma manifestação de famílias Pró-Vida, não é um incidente, como noticiou a Lusa e o PSD reproduziu em comunicado inicial. É um ato terrorista, ainda que falhado por a garrafa não ter propagado a gasolina que continha, ferindo ou matando pessoas. Libertar o autor, um adulto de 39 anos, pouco depois com um termo de identidade diário, é complacência. Também não é sensato nos dias extremados de hoje levar crianças inocentes para manifestações ideológicas.
1. Face à imprevisibilidade de Trump, é temerário escrever sobre a guerra com o Irão com um dia de antecedência. A trégua de cinco dias de Trump não existe do lado israelita. Os ataques hebraicos até aumentaram. Não há negociações. Há apenas contactos através do Paquistão. Quarta-feira Trump tornou público um plano de 15 pontos que corresponderia a uma derrota total do Irão, que o recusou logo, respondendo com uma contraproposta inaceitável para os americanos. Nenhum cenário é de excluir. Pode haver conversações, se as partes cederem em certos pontos. Também pode agravar-se para tropas no terreno ou para a utilização de armamento arrasador, deixando de ser seletivo. Já é possível confundir os interesses dos EUA e de Israel. O bloqueio do estreito de Ormuz e a capacidade inesperada de resposta do Irão fragilizam Trump, perante o dano económico do mundo ocidental, dos seus aliados árabes e dos seus interesses pessoais. Para Israel o objetivo único é decapitar o regime de Teerão e consolidar o domínio no sul do Líbano, na Síria e nos territórios palestinianos. Nos EUA, deslassa-se a base MAGA de apoio a Trump. Se a guerra continuar, há democratas que admitem que ele pressione o adiamento das eleições de meio do mandato para evitar uma derrota e uma iniciativa para o apear. Embora nacionais, as eleições são organizadas pelos estados e os republicanos controlam 27 dos 50 existentes. Nem durante as duas guerras mundiais as eleições deixaram de se fazer. Se for derrotado, nada garante que Trump não volte ao discurso de incentivo ao assalto ao Congresso. Perante isto, o mundo agita-se, os preços disparam, a China enerva-se e consolida-se (fez um acordo com África em que acaba com todas as tarifas de importação), a Rússia ganha dinheiro e prepara a ofensiva da primavera contra a Ucrânia, enquanto a União Europeia é boicotada por húngaros e eslovacos e a ONU de Guterres parece um centro de dia para velhos. No terreno, os ayatollahs descentralizaram o poder de fogo, criando novos senhores da guerra. Trump já é visto como um como um ‘loser’ mundial. Tenta salvar a face com negociações. Mas não se pode excluir que suba a intensidade do conflito para níveis impensáveis. Os próximos dias são cruciais. O mundo está mesmo muito perigoso. Não é demais lembrar que a Grande Guerra de 14-18 começou quase do nada. E só havia armas de curto alcance.
2. Parece que não mas está a fazer dois anos que Luís Montenegro é primeiro-ministro. Tomou posse a 2 de abril de 2024. Desde então houve legislativas antecipadas, renovou o seu mandato, ajustou o governo e a situação política complicou-se muito, interna e externamente, com o PS a ceder o lugar ao Chega como principal partido da oposição, deixando a AD presa em tenaz. Embora ninguém esteja interessado em derrubar o Governo, o facto é que a autonomia de Montenegro está limitada. A guerra, a degradação económica, os temporais devastadores, o caso Spinumviva, uma óbvia falta de qualidade de membros do Governo e o sebastianismo passista não ajudam. Antes pelo contrário. Os primeiros dias do presidente Seguro mostram equidistância em relação a todas as forças e uma atenção especial à ação governativa, como lhe compete. Uma sondagem publicada no Expresso confirma que a avaliação do Governo não é brilhante. Não vale a pena esmiuçar os números, porque só terão piorado desde que foram recolhidos. É manifesto que o governo navega à bolina. Quase tudo o que promete fica por fazer ou gera ainda mais entropias num Estado gigantesco, cheio de incapacidades que permitam aplicar as decisões que diariamente são proclamadas por ministros televisivos e erráticos. Durante oito anos Costa governou de anúncio. Dentro de dias teremos de juntar mais dois anos por conta de Montenegro. Afinal o que é que, em concreto, foi feito para resolver os grandes problemas da sociedade e os meandros da gigantesca burocracia que nos inferniza a vida? Pouco ou nada. Nem sequer há medidas de combate imediato aos efeitos da guerra no Irão. Aqui espera-se e fazem-se contas. Em Espanha atua-se. Qualquer dia vale a pena ir de Lisboa a Badajoz atestar o carro e comprar bilhas de gás, mesmo pagando portagens.
3. José Luís Carneiro estragou num ápice o efeito positivo da sua reeleição no PS, ainda que como candidato único. Em vésperas do congresso deste fim de semana, foi à Venezuela legitimar o regime sucedâneo de Maduro e um parlamento chavista que nenhum democrata reconhece. Cá, não aceita perder nenhum dos quatro lugares que, na prática, o PS indicou para o Tribunal Constitucional, não hesitando em ameaçar chumbar o Orçamento do Estado por causa disso. Efeito direto: costistas e socráticos deixaram a guerra de salão e já piam na comunicação social.
