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O Médio Oriente e o meridiano da confiança

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15.04.2026

A fragilidade invisível

O turismo é uma das poucas indústrias que reagem antes dos indicadores macroeconómicos. A sua matéria-prima não é física. É invisível, mas determinante. Chama-se confiança. E, quando essa confiança se retrai por guerra, crise económica ou instabilidade, o impacto é imediato. 

Os dados mostram essa sensibilidade. Mais do que quedas absolutas, o que caracteriza o turismo em contexto de crise é a sua capacidade de se reorganizar geograficamente.

Em crises regionais recentes, destinos percecionados como mais seguros tenderam a recuperar mais rapidamente. Em 2011, durante a Primavera Árabe, países como o Egito e a Tunísia registaram quedas próximas de 30% nas chegadas internacionais, enquanto destinos do Mediterrâneo ocidental, como Espanha e Portugal, absorveram uma parte significativa dessa procura desviada.

Um padrão semelhante voltou a verificar-se em 2016, durante o período de instabilidade na Turquia. Nesse ano, o país registou uma quebra acentuada no turismo internacional, enquanto destinos concorrentes no sul da Europa registaram crescimentos relevantes. Mais recentemente, a guerra na Ucrânia voltou a introduzir um efeito de redistribuição, penalizando o leste europeu e reforçando a procura por destinos percecionados como mais distantes do risco.

Estes exemplos mostram um padrão consistente. O turismo não desaparece, redireciona-se. A quebra é imediata, mas a recuperação raramente acontece no mesmo lugar. Os fluxos deslocam-se para geografias percecionadas como mais estáveis, mais acessíveis ou mais previsíveis.

O elemento novo no contexto atual está na natureza da região em causa. O Médio Oriente é uma região pivô, com um papel estrutural na mecânica da mobilidade global. Funciona como um eixo de ligação entre continentes, um ponto de passagem para fluxos aéreos, energéticos e económicos. Quando uma região com esta centralidade é afetada, o impacto deixa de ser apenas regional.

Quando os eixos falham

Os impactos no turismo não são eventos isolados. São ativações de um conjunto de eixos estruturais que incluem segurança, acessibilidade, economia, tempo e narrativa. Variáveis como o preço do petróleo ilustram bem esta interdependência, atuando diretamente no eixo económico e, de forma indireta, na acessibilidade das viagens. Quanto mais eixos são ativados simultaneamente, maior é o impacto no fluxo global de viagens.

Com o espaço aéreo russo e ucraniano condicionado, este eixo tornou-se ainda mais central. Em março deste ano, a Eurocontrol estimava que mais de mil voos por dia estavam a ser afetados por desvios de rota ligados à instabilidade regional. Estes desvios entre a Europa e a Ásia podem acrescentar entre uma a quatro horas ao tempo de voo, com impacto direto no consumo de combustível e na eficiência operacional. Segundo a IATA, o combustível representa cerca de trinta por cento dos custos totais das companhias aéreas, tornando qualquer aumento de distância um fator crítico na viabilidade das rotas de longo curso. A acessibilidade deixa, assim, de ser uma constante, tornando-se uma variável, que afeta todo o sistema.

A perceção de segurança como luxo transversal

O arco de instabilidade estende-se do leste europeu ao Médio Oriente, condicionando o espaço aéreo de forma disruptiva e perturbando, ou mesmo neutralizando, alguns dos principais corredores marítimos do mundo, como o Canal de Suez e o Estreito de Ormuz. Mais do que a sua dimensão, é a sua centralidade que amplifica o impacto. Esta geografia concentra rotas aéreas intercontinentais, fluxos energéticos e cadeias logísticas críticas, transformando uma disrupção regional num fenómeno de escala sistémica.

A perceção de risco atual funciona como uma rede invisível que envolve mais de duas dezenas de países entre o leste europeu e o Médio Oriente, estendendo-se até à periferia do Mediterrâneo.

Voltamos ao básico, a condição de segurança. O impacto não é apenas físico, é também psicológico. A perceção de risco influencia diretamente a decisão de viajar e pode afetar a procura mesmo em destinos não diretamente impactados.

O turismo não reage apenas ao que acontece. Reage à forma como o mundo interpreta o que acontece.

Confiança na Península

A primavera marca o início da fase de decisão das viagens de verão europeu, o período em que uma parte significativa da procura é definida. Uma disrupção neste momento não interrompe apenas viagens. Redefine o mapa das escolhas.

A evidência mostra que, em contextos de instabilidade, a procura turística tende a deslocar-se para geografias percecionadas como mais estáveis. Tal como após a Primavera Árabe, destinos do Mediterrâneo ocidental tendem a absorver procura desviada. Portugal e Espanha beneficiam de uma combinação objetiva de estabilidade, proximidade e elevada perceção de segurança.

Em paralelo, o aumento do custo da energia introduz uma restrição económica clara. O aumento do preço do combustível impacta diretamente a aviação e reduz a competitividade das rotas de longo curso. À medida que o custo sobe, o alcance encurta.

Esta transformação não é apenas económica. É comportamental. Em contextos de incerteza, os viajantes tendem a privilegiar destinos mais próximos, geografias mais familiares e países percecionados como seguros.

O que se perde em alcance global ganha-se em proximidade. É neste novo equilíbrio, ainda que temporário, que a Península Ibérica e o Norte de África emergem como geografias do meridiano da confiança.

Todas as semanas, no SAPO, Os Alquimistas olham para o turismo como uma das indústrias do glamour e fascinantes do mundo, capaz de gerar impacto positivo à escala global. Com a experiência de André Oliveira, Teresa Moreira, Tiago Duarte e Célia Meira, é um espaço de reflexão e transformação onde a alquimia se traduz em ideias, estratégias e narrativas que iluminam o setor. Entre o enquadramento nacional e o internacional, exploram tendências e revelam a verdadeira essência desta indústria da paz: unir pessoas, culturas e destinos através da qualidade e da inspiração.


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