O médico atrás da secretária e a robô de bata branca
Há vários tipos de insónia. Uma grande parte da população conhece bem a insónia intermédia, a que nos acorda ao fim de umas horas de sono, ou logo que passa o efeito do comprimido que ajuda a adormecer em vinte minutos. Nada fora do comum. Eu, que por acaso não tenho a insónia entre os meus vícios e durmo aquele sono de anjo que só por si provoca inveja a muitas almas, dei por mim, numa destas noites, acordada às cinco da manhã.
Acordei com a imagem do sonho ainda inteira. Uma robô entrava num gabinete médico, saltava para cima da secretária e fazia a espargata, deixando deslizar pelo corpo metálico, também ele branco, a bata branca que vestia. Tinha cabelo comprido, aparentemente natural, porque eu tinha acabado de lhe tocar. Acordei assim, com uma madeixa do meu próprio cabelo enrolada na mão. Era uma médica. Abri os olhos, estonteada e ofegante, e mexi logo as pernas. Não fosse eu ter feito a espargata na vida real e esquecido que a minha fase de flexibilidade máxima já tinha sido enterrada há muito. Estava intacta. Transpirada, isso sim.
Peguei no caderno de apontamentos que mantenho na mesa de cabeceira. Mantenho-o para imitar aquelas pessoas que dizem ter os seus picos de ideias disruptivas a meio da noite, porque fica mal dizer “durmo tão mal, há anos que ando desnorteada”. Ou para imitar as que mantêm a o terço de rezar em cima da mesa e os comprimidos ansiolítico e o regulador de humor escondido na gaveta. Invejo ambas: as........
