Dia de Portugal, duas velocidades e o que a economia não entende sobre o trabalho
"5, 4, 3, 2, 1 — Chegámos a Espanha!"
Foi assim que no dia 10 de junho celebrei, com a minha família, a passagem da fronteira ibérica. O destino eram os Picos da Europa. Para lá chegar, atravessámos Portugal do litoral ao interior, e os quilómetros foram mostrando, sem filtro, a velocidade a que vive cada parte deste Portugal.
Cruzar a fronteira funciona quase como um espelho retrovisor. A contagem decrescente dos meus filhos ecoou durante horas. Porque em Portugal a velocidade com que se vive depende dramaticamente do código postal onde se nasce ou se trabalha. E olhando para trás, para o interior que deixámos, a paisagem deserta não era apenas uma contingência geográfica, era o retrato de um país que caminha a ritmos radicalmente descompassados.
O país dos números coxos
O estudo Portugal Desigual, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, deita por terra qualquer ilusão de anestesia social. Em 2024, cerca de 1,7 milhões de pessoas viviam abaixo do limiar de pobreza, com um rendimento equivalente inferior a 723 euros por mês. Mas o dado mais perturbador nem é este, é que Portugal, continua a ser um dos países com maior incidência de pobreza na União Europeia, e trabalhar já não garante escapar dela. Há famílias inteiras onde o principal rendimento vem do trabalho e a pobreza persiste.
Em simultâneo, o economista João Duarte, no podcast da mesma Fundação, explica com clareza a grande falácia do nosso debate público. Tratamos a produtividade como um problema técnico, resolvível com fundos europeus ou engenharia fiscal. Esquecemos que a economia é feita de pessoas. Em Portugal confunde-se a pressa com a eficácia, e as horas de trabalho com a criação de valor. O resultado é um país que trabalha muito, ganha pouco e produz mal. Os alemães, que servem frequentemente de........
