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E se o trabalho acabar antes da reforma?

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13.10.2026

Há duas formas de discutir o futuro da Segurança Social. Uma é baseada em alterar as regras do sistema: a idade da reforma (que me perdoem os franceses), o valor das contribuições, a fórmula de cálculo das pensões. Outra, de ambição reformista, interroga a sua arquitetura: quem deve financiar a proteção social, sobre que rendimentos e com que relação entre aquilo que cada pessoa desconta e aquilo que recebe. Ambas são escolhas políticas. A diferença está na profundidade da mudança que estamos dispostos a considerar.

Entre uma discussão e outra, fazemos contas. Projetamos quantas pessoas estarão a trabalhar, quanto ganharão, quantos anos viverão depois de se reformarem. Precisamos dessas contas, mas precisamos também de perceber que ideia de futuro está dentro delas.

Imaginemos alguém com cinquenta anos que perde o emprego depois de duas décadas na mesma profissão. A empresa automatizou as suas funções e substituiu-o por um tal Claude, que não precisa de férias, não adoece e nem precisa de uma secretária para trabalhar. Essa pessoa, como tantas outras na mesma situação, tem casa por pagar, filhos a estudar e muitos anos até à idade da reforma. Está disponível para aprender: inscreve-se numa formação, envia candidaturas, aceita começar de novo. Mas os meses passam.

A essa pessoa, dizer que a tecnologia acabará por criar novas profissões é oferecer uma resposta sem data. É uma promessa sem prazo, sem certeza. Precisa de saber como chega ao final do mês e onde poderá voltar a ser útil. Precisa também de não sentir que a dificuldade em encontrar trabalho se tornou uma falha sua.

É precisamente nesse intervalo entre a perda do emprego e a chegada à reforma que o debate sobre a inteligência artificial se cruza inevitavelmente com o futuro da Segurança Social.

No último ano, a inteligência artificial transformou radicalmente o meu trabalho como consultor. É dessa experiência, e do que vejo acontecer à minha volta, que nasce a minha convicção: haverá pessoas para quem esta mudança significará ficar........

© Sapo