A arte feita por IA veio para ficar… o que queremos que ela seja?
Os sistemas de inteligência artificial (IA) generativa vieram fragilizar os meios de subsistência dos artistas, colocar em causa os direitos de propriedade intelectual e reforçar enviesamentos e desinformação. Os problemas são urgentes e precisam de ser resolvidos.
Mas, independentemente da forma como os resolvermos, não é possível voltar a colocar o génio da IA dentro da lâmpada. Por isso, não percamos a oportunidade de perguntar aquilo que seria desejável. O que poderão ser os artistas de IA? O que deveriam ser?
Os sistemas de IA existentes são concebidos segundo um “princípio de cafetaria”, servir comida boa e familiar. Esta é a proposta de valor da indústria tecnológica. Mas será que queremos apenas máquinas treinadas para reproduzir o que já nos é familiar?
Sempre garantimos que os jovens artistas fossem incentivados a correr riscos, a experimentar coisas novas, a explorar. Estamos hoje incomparavelmente mais ricos porque Van Gogh ignorou as expectativas dos seus contemporâneos. O mesmo fizeram Aretha Franklin, Franz Kafka ou Zaha Hadid.
Muitos filmes, canções e poemas são bons precisamente porque se assemelham a outros bons filmes, canções e poemas. Mas alguns fogem à norma. A beleza inesperada é especialmente encantadora.
Sistemas como o ChatGPT ou o MidJourney fazem um trabalho extraordinariamente eficaz a preparar essa “comida familiar”. No entanto, são convencionais. Falta-lhes personalidade artística.
Em vez do “princípio da cafetaria”, porque não conceber sistemas capazes de nos surpreender precisamente por não corresponderem às nossas expectativas? Grande parte do que daí resultar falhará, mas alguma parte desafiar-nos-á a repensar a arte e o lugar que ela ocupa nas nossas vidas.
Veja-se a Ai-Da (na imagem abaixo). A Ai-Da é um robô autónomo, equipado com olhos e um braço mecânico que utiliza para desenhar e pintar aquilo que vê. Tem memória e consegue aceder à internet. Consegue também falar sobre arte, sobre as imagens que cria e sobre si própria, tema sobre o qual chegou a discursar no Parlamento britânico. Como artista residente no Ben Nicholson Studio, em 2022, produziu trabalhos inspirados pelas obras de Nicholson.
A Ai-Da não é ficção científica. Apesar de ser bastante rudimentar, ilustra os tipos de ingredientes que podem integrar um design gourmet de futuros artistas de IA.
Consideremos a razão pela qual ela e o seu trabalho fascinam o público. Ao contrário da IA generativa, a Ai-Da tem um corpo que a situa no mundo. Em consequência, desenha aquilo que vê. Os seus desenhos revelam o funcionamento dos seus olhos e a mecânica do seu braço, conferindo significado à sua preferência por planos de cor sobrepostos por linhas irregulares. Ao contrário da IA generativa, tem experiências individualizadas, como a experiência vivida no estúdio Nicholson. O ChatGPT sabe tudo, mas os indivíduos são únicos precisamente porque as suas perspetivas são limitadas. A Ai-Da enriquece o seu trabalho quando fala sobre ele, porque está a partilhar a sua própria perspetiva.
Os sistemas de IA generativa imitam o pensamento humano de forma tão eficaz que podemos começar a questionar se ainda precisamos de pensar por nós próprios.
Felizmente, não somos apenas máquinas de pensar. Somos seres corpóreos. Sim, a Ai-Da também é corpórea, mas o seu corpo mecânico é muito diferente dos nossos corpos biológicos. A sua arte será sempre diferente, porque o seu corpo a posiciona de forma distinta no mundo. Não é de admirar que o público se sinta particularmente encantado com os seus autorretratos, pois estes partilham connosco a sua perspetiva sobre a sua corporeidade.
Na Ai-Da, vislumbramos uma possível forma de construir futuros artistas de IA que nos surpreendam precisamente por serem diferentes de nós. Talvez possamos também começar a valorizar aquilo que nos podem oferecer: um convite a refletir, de forma concreta, sobre a corporeidade, a nossa e a deles.
Professor Killam da University of British Columbia e Professor Visitante nas Humanidades (Fundação Calouste Gulbenkian) no CECH, Universidade de Coimbra
