E se os deep fakes nos devolvessem a privacidade?
Há ironias históricas que só se revelam quando uma tecnologia já começou a fazer estragos. No meu último artigo, sugeri uma delas: a de que a proliferação de deep fakes informativos pode, paradoxalmente, devolver alguma vantagem competitiva aos órgãos de comunicação social, se estes conseguirem distinguir-se das redes sociais pela capacidade de verificar, filtrar e garantir credibilidade. Hoje trago uma hipótese ainda mais contra-intuitiva, e talvez mais polémica: a de que a massificação de imagens e vídeos falsos altamente realistas poderá, a longo prazo, ter um efeito positivo sobre a privacidade.
Não me interpretem mal. Poucas tecnologias parecem tão ameaçadoras para a intimidade individual como uma ferramenta que permite colocar a nossa cara, o nosso corpo ou a nossa voz em situações que nunca existiram. Os deep fakes já causam danos reais e continuarão a causá-los. Serão usados para difamar, humilhar, chantagear, manipular e destruir reputações. Terão um impacto psicológico brutal em muitas vítimas, especialmente mulheres, jovens e figuras públicas. Tudo isto é sério e justifica resposta legal, tecnológica e cultural. Mas, paradoxalmente, após um período de adaptação, esta mesma tecnologia pode gerar consequências secundárias inesperadas.
Quem nasceu nos anos 80, como eu, certamente invejará a juventude de quem nasceu nas décadas seguintes. Mas a inveja termina aí. Dificilmente invejará o facto dessa geração ter vivido sempre em crise, de ter sido obrigada a ficar confinada numa idade particularmente importante do seu desenvolvimento social ou de ter de trabalhar muito mais para........
