A parte do futuro que passa por nós
Toda família começa antes de perceber que começou. Um homem encontra uma mulher, trocam algumas palavras, despedem-se e seguem o dia. Nada anuncia importância. Nenhuma música, nenhum clarão. Apenas duas pessoas diante uma da outra, sem saber que, naquele instante comum, o futuro havia escolhido outra direção.
Dias depois, tornam a se encontrar. Dois anos e meio mais tarde estão casados. Chega uma filha, depois um filho. A casa aprende outros ruídos, medos, alegrias, pequenas urgências. Aquele primeiro encontro ganha raízes, fotografias, aniversários, ausências futuras e pessoas que ainda levariam décadas para nascer e perguntar de onde vieram.
Quinze anos passam. O menino conhece uma jovem que estava de passagem pela cidade. Ela poderia ter ido embora antes. Ele poderia ter ficado em casa. Mas saíram, conversaram, permaneceram. Cinco anos depois se casaram. Uma vida inteira nasceu de um encontro que quase não aconteceu.
Muito tempo depois, uma menina corre pela sala, tropeça no tapete, ri e continua brincando. Não sabe que seu rosto depende daquela conversa remota entre dois desconhecidos. Bastaria um atraso, uma viagem antecipada, uma porta fechada, uma frase engolida, e ela desapareceria da história. Esse pensamento me comove porque transforma acaso em vertigem e presença em milagre cotidiano.
Somos feitos também das decisões que........
