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A bolsa ou a vida

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20.10.2026

O Brasil inventou uma convivência brutal: celebra diariamente a valorização de patrimônios enquanto milhões de trabalhadores precisam conferir o saldo bancário antes de comprar ovos. Nas telas financeiras, números variam em segundos; nas cozinhas pobres, a conta é feita diante de uma panela. A mesma economia produz ambos os resultados e administra essa contradição como rotina.

Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1962, A bolsa & a vida, livro de crônicas atento tanto às notícias do mundo quanto aos pequenos acontecimentos domésticos. Numa delas, uma bolsa esquecida num ônibus desencadeia uma investigação delicada sobre sua dona. Sessenta e quatro anos depois, o título convida a uma pergunta menos literária: que vida cabe em cada bolsa brasileira?

Em setembro, a B3 reunia 5,886 milhões de investidores e movimentava, em ações, R$ 33,4 bilhões por dia. Neste outubro, o Bolsa Família atende 19,3 milhões de famílias, com repasses próximos de R$ 15 bilhões mensais. Negociações de ativos e transferências de renda medem fenômenos distintos; compará-las exige honestidade estatística e, sobretudo, responsabilidade social.

Seria intelectualmente preguiçoso tratar cada acionista como bilionário. Muitos investem economias modestas, tentando proteger a velhice. Também seria ofensivo reduzir beneficiários do Bolsa Família a dependentes da assistência estatal. Entre eles existem diaristas, vendedores, trabalhadores intermitentes e mães........

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