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Janja e a misoginia “gastadeira”: quando uma mulher chega ao poder, procuram o crime

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17.07.2026

Janja afirmou que a acusação de ser “gastadeira” é expressão de misoginia contra mulheres no poder.

Comentadores inverteram a crítica, alegando que reconhecer o preconceito seria tentativa de fugir da prestação de contas.

O debate ressaltou a diferença entre fiscalização legítima de despesas públicas e estereótipos que deslegitimam a mulher.

O caso evidencia como, no Brasil, críticas a mulheres em cargos de destaque costumam ser associadas a preconceitos de gênero.

O Brasil reconhece a misoginia com facilidade enquanto ela permanece abstrata, distante e sem rosto.

Quase todos concordam que mulheres são julgadas com mais dureza, precisam provar competência repetidas vezes e pagam um preço alto quando ocupam lugares de visibilidade. A concordância termina quando uma mulher concreta aponta o mecanismo em funcionamento.

Nesse instante, começa um ritual conhecido: ela está exagerando, não suporta críticas, quer se vitimizar ou usa o feminismo como escudo. Foi o que se viu quando Janja afirmou que a fama de “gastadeira” atribuída a ela é uma expressão de misoginia.

Em vez de discutir por que essa palavra, carregada de desprezo moral, é colada com tanta facilidade a uma mulher, muita gente preferiu inverter a acusação e sugerir que reconhecer o preconceito seria uma tentativa de fugir da prestação de contas.

Mas, denunciar misoginia não equivale a reivindicar imunidade. Uma mulher pode ter seus atos fiscalizados, suas despesas questionadas e suas explicações confrontadas sem ser transformada numa caricatura de futilidade, deslumbramento e abuso, porque a cobrança pública é legítima, enquanto a presunção de culpa construída a partir de um estereótipo feminino não é.

É nesse deslocamento que está o centro da questão. Uma coisa é questionar determinado gasto, seu valor, sua finalidade e sua regularidade. Outra, muito diferente, é converter uma mulher em “gastadeira”. A palavra não pertence à contabilidade pública. Ela não informa quanto foi gasto, não identifica uma despesa indevida, não demonstra superfaturamento e não apresenta qualquer prova de irregularidade.

“Gastadeira” é um julgamento de caráter. A palavra produz a imagem de uma mulher fútil, deslumbrada, irresponsável e incapaz de controlar os próprios desejos, alguém que se apropria do dinheiro de um homem ou, neste caso, do Estado, para sustentar luxos pessoais. O gasto deixa de ser uma ação que precisa ser esclarecida e passa a ser a expressão de uma natureza feminina supostamente defeituosa.

Um homem pode ser acusado de gastar demais. A mulher torna-se gastadeira. O verbo vira identidade. A suspeita deixa de recair sobre uma despesa específica e contamina tudo o que ela faz, veste, compra, visita ou representa. É justamente aí que o gênero entra, não para impedir a fiscalização, mas para mostrar como uma cobrança pode ser transformada em condenação moral.

A mulher bem-sucedida ainda é tratada, muitas vezes, como um patrimônio de origem duvidosa. Diante de um homem com dinheiro, prestígio e influência, a tendência é procurar as decisões que explicam sua vitória, os negócios que fez, as........

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