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Feminismo de conveniência: quando a pauta das mulheres vira arma eleitoral

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30.09.2026

Luiz Inácio Lula da Silva estava falando sobre saúde. Mais especificamente, falava sobre câncer, prevenção, exames de próstata e a resistência dos homens ao toque retal. Havia acabado de mencionar os avanços da cirurgia robótica no tratamento do câncer de próstata e recordava a própria mãe, Dona Lindu, que morreu vítima de câncer uterino. Foi nesse contexto que afirmou que as mulheres aprendem a “tomar toque desde pequenas”, contrapondo a familiaridade feminina com consultas e exames ginecológicos à resistência masculina aos exames preventivos.

Não há, quando se assiste à fala inteira, referência a abuso sexual de crianças. A circulação do trecho como se Lula estivesse falando de violência sexual retira a declaração do contexto em que foi feita. O assunto era saúde pública, prevenção e a diferença cultural entre a maneira como homens e mulheres cuidam do próprio corpo.

Foi necessário retirar uma frase de seu contexto e transportá-la para outro universo semântico para que um comentário sobre exames médicos pudesse se transformar, nas redes, em “Lula não toque nas crianças”.

Não foi apenas uma interpretação espontânea da internet. A campanha de Flávio Bolsonaro preparou materiais para explorar eleitoralmente a declaração na reta final do primeiro turno. O PL produziu uma peça que, depois de exibir a fala de Lula, apresenta números de estupro de vulnerável e afirma não existir circunstância que justifique uma menina “tomar toque desde pequena”. A declaração sobre prevenção ao câncer havia sido convertida em uma narrativa sobre violência sexual infantil.

É nesse ponto que aparece aquilo que pode ser chamado de feminismo de conveniência.

A violência sexual contra meninas brasileiras é grave demais para servir como recurso de edição de vídeo. Transformar estatísticas de estupro infantil em elemento emocional de uma propaganda eleitoral, sabendo que a declaração utilizada como ponto de partida tratava de exames médicos, não representa necessariamente um aprofundamento do debate sobre os direitos das mulheres. Representa, antes, a descoberta de que nossa dor também pode render........

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