Bares Brasil afora XVII – Minha terra – a saideira
O autor se despede da coluna semanal "Bares Brasil afora" na Revista Fórum, relembrando bares marcantes de sua cidade natal, Nova Resende (MG).
O texto narra experiências do autor em bares como o Buraco da Onça, onde trabalhou na infância, e o Bar do Américo, palco de um episódio de embriaguez precoce.
A coluna descreve o Inferninho, bar noturno frequentado por homens, e o Bar do Tonho, conhecido por roubos de frango e um peculiar "depósito" das aves.
O autor finaliza com histórias da Churrascaria Balaio, que não servia churrasco, e um incidente inusitado envolvendo o dono do estabelecimento e uma cliente.
Termino esta série lembrando de bares de Nova Resende (MG). Minha vida botequeira começou cedo. Já contei essas histórias por aí, e repito aqui. Mas, antes, explico que a saideira, no caso, não é a última antes de sair do boteco, é a saideira como colunista semanal da Fórum.
“Antigamente” (!) tudo quanto é revista impressa tinha uma crônica na última página. Às vezes, nas revistas mais sérias, era uma crônica despretensiosa, com o propósito claro de dar um respiro num conjunto de textos que exigem reflexão. Fui colunista de várias, inclusive da Fórum impressa. Bom… Revistas impressas hoje são poucas.
Minha ideia aqui era fazer propositalmente textos singelos, meros passatempos, causos e abobrinhas como, repito, um respiro para os textos sérios, reflexivos. Mas sinto que os tempos mudaram, poucos leitores, acredito, se interessam por minhas abobrinhas, então paro de tomar tempo dos editores.
Antes de ser colunista regular, de vez em quando, mandava um texto que julgava apropriado para determinados momentos, e a Fórum publicava. Volto a fazer isso. Muito de vez em quando mesmo.
E como este texto é a saideira, vai em dose maior. Se eram grandes os que publiquei antes, este vai quase em dose dupla.
São muitos e muitos bares pra eu falar, mas vou me limitar a alguns. Saí de lá quando completei 16 anos, mas voltava algumas vezes por ano, até pouco tempo atrás.
Vou começar falando (mais uma vez, já contei muito esta história) do Buraco da Onça, bar que ficava atrás do cinema, vizinho à minha casa.
Funcionava depois que o filme terminava, e ia até amanhecer. De madrugada, algumas prostitutas e “biscates” iam para lá. Era um lugar de gandaia, como se dizia. Com uns 6 anos de idade, eu era doido pra “ficar grande”, só para ir ao Buraco da Onça. Invejava os gandaieiros.
Quando eu já estava no alto dos meus oito anos de idade, o bar mudou para uma casa ali perto, de frente para a praça, e passou a ter que manter as aparências de bar comum, funcionando também durante o dia.
Acontece que os donos, dois sócios, depois de passarem a noite trabalhando e um breve descanso, ficarem sem saco para ficar vendendo doces e picolés durante o dia, precisavam de alguém para trabalhar lá durante um período, de vez em quando.
Eu estava no segundo ano do curso primário, com aulas das 7h às 11h, e tinha a tarde livre. Um dia um dos sócios me perguntou se eu sabia fazer contas. Respondi até meio ofendido: “Claro que sei… Tô no segundo ano do grupo”. Ah, pensem num moleque de 8 anos hoje, se gabando de sua escolaridade.
Ele perguntou então se eu podia trabalhar no bar algumas tardes. Topei. Nas tardes em que me chamavam, eu ficava sozinho ali, atendendo à clientela que não era bem a que eu queria: quase só vendia picolés e doces para crianças, e eu queria era vender cachaça, principalmente a nossa Levanta e Cai, fortíssima, produzida no município.
A maior parte do tempo não tinha nenhum freguês, e eu ficava sentado na porta do bar. Quase todas as tardes, via vir lá longe um manjado cachaceiro e me alegrava. “Eba! Vou vender uma pinga!”.
Quando ele estava perto, cambaleando, eu ia pra trás do balcão e esperava como se não soubesse o que ia acontecer. Ele se aproximava e fazia o pedido:
— Ô, menino! Põe uma Levanta e Cai pra mim.
Punha uma dose caprichada pra ele ficar freguês, sabendo o que ele ia pedir em seguida, mas esperando, para cumprir um ritual botequeiro.
— Chuja ela… — pedia.
“Chujar”, ou seja, sujar, era pôr um pouquinho de fernet, bebida escura e amarga cuja pronúncia “correta” é fernê, mas lá era fernete.
Ele bebia, pagava, saía feliz e me deixando com a sensação de balconista de boteco de verdade.
Eu tinha 12 anos, acho, e o meu amigo Vítor, também. Nas horas de pouco movimento, ele ficava sozinho como balconista do bar do seu pai, Américo.
Um sábado no final da tarde, fui lá comprar um doce e ele estava discutindo com um moleque da mesma idade, não me lembro quem, sobre beber um copo de Levanta e Cai numa virada só. Depois de adulto achei um rótulo dessa pinga e constava a informação: até 54º de álcool. Era fortíssima!
Como moleque é um bicho metido a besta (e eu não escapava disso), falei fazendo pose: “Eu bebo. Só não bebo agora porque trouxe dinheiro só pra comprar um doce”. O Vítor respondeu: “Se beber numa virada só, não precisa pagar”. Topei.
Ele encheu um copo americano de cachaça, eu virei, fiz pose de novo, puxei o dinheiro que ia usar pra comprar um doce e falei: “Põe uma dose pra mim, por minha conta. Em vez de comer doce, vou beber mais um pouco”.
Ele pôs uma dose caprichada, mais de meio copo, virei de uma vez também, paguei, virei pra voltar pra casa, dei três passos e caí bêbado, quase em coma alcoólica. Não sei como cheguei em casa, mas era um fogo daqueles em que via casa girando, com uma sensação desgraçada. No dia seguinte, claro, levei um esporro do meu pai, mas nem precisava. Passei mais de um ano não suportando nem olhar garrafas de cachaça.
O Américo era o mesmo, só que vendeu o bar da praça e comprou um no alto da cidade, com sinuca. Era proibido a menores de idade não só jogar sinuca, mas mesmo ficar nos bares. Os encarregados de fiscalizarem isso eram dois meirinhos (oficiais de justiça) que percorriam os bares da cidade todas as noites. Só que faziam isso a pé, e devagar, porque eram velhos.
Quando iam ao bar do Américo, distante e com uma ladeira quilométrica desde a praça da cidade, encaravam com dificuldade aquela distância morro acima. O Américo permitia que eu, com uns 14 anos de idade jogasse, assim como outros menores. Só tínhamos que dar uma olhada na rua de vez em quando e ver se a dupla de meirinhos estava chegando lá. A gente dava uma tacada, chegava até a porta e, se eles estivessem vindo, escondíamos na horta até que fossem embora.
Na época, eu era aprendiz de barbeiro, mas não gostava da profissão. Meu pai, dono da barbearia, para me incentivar, me dava todo o dinheiro das barbas que eu fizesse. Fazia umas três barbas e subia pro bar do Américo, para ganhar dinheiro apostando com roceiros que jogavam pior do que eu.
Uma vez fui lá à noite e joguei bastante. Quando dei por mim, era uma hora da manhã. Olhei em volta, não tinha ninguém que morava “lá embaixo”, na praça. Só eu. Fui embora despreocupado, morro abaixo, pelo meio da rua, pois não passava carro nenhum. Havia muita neblina muito forte e a luz da rua era fraca, escuridão quase total. Só enxergava uma pequena claridade em volta de cada lâmpada, que servia de referência para caminhar sem peitar as paredes. A luz era fraca, falávamos que era preciso acender um fósforo para enxergar. Fui assobiando, despreocupado, até que uns trezentos metros abaixo passou um gato preto correndo na minha frente. Levei um susto.
Aí comecei a me lembrar das histórias de assombrações “vistas” ali perto. Num largo, uns cem metros abaixo, tinha a igreja do Rosário, construída por escravos, abandonada havia muitos anos, que tinha fama de mal-assombrada. Eu mesmo inventava histórias de assombrações perigosas que saíam da igreja para pegar gente que passava em frente de madrugada. Um cara adulto, medroso, era uma das minhas vítimas. Ele costumava ficar nos bares da praça até tarde da noite e era preciso que alguém o acompanhasse até sua casa. Não havia carros, era a pé, sempre.
Comecei a lembrar disso e pensar: “E se por castigo aparecer pra mim uma dessas coisas que inventei?”. Fui ficando com medo e peguei a calçada do lado oposto ao da igreja, mas deste lado da rua tinha o escritório de contabilidade em que eu trabalhei até pouco tempo antes, e havia morrido dentro dele, de ataque cardíaco, um rapaz de 18 anos a quem eu estava ensinando datilografia, e fiquei com medo dele aparecer pra mim. Fui então pelo meio da rua de novo, naquela escuridão, com a igreja do Rosário de um lado e o escritório do outro.
Não aguentei… Disparei correndo morro abaixo, torcendo pra não tropeçar numa das pedras mal colocadas do calçamento. Um tombo correndo morro abaixo seria uma tragédia, que felizmente não aconteceu. Passei a jogar sinuca (e beber) no bar do Américo só à tarde.
Um pequeníssimo bar, com apenas uma porta, ficava na praça central e abria só à noite, e varava a madrugada. Frequentado só por homens chegados numa cachaça, tinha esse apelido, Inferninho.
Uma noite, houve uma briga generalizada lá, a polícia chegou e prendeu todo mundo… menos um rapaz, o Paca, que o próprio cabo da PM reconhecia como trabalhador. Era padeiro. Mas depois que a polícia levou a turma toda, o Paca ficou se queixando:
— Prenderam todo mundo, menos eu. Vão achar que eu tô de culeio com a polícia.
Foi à delegacia, bateu na porta, foi atendido pelo cabo e disse:
— Seu Firmino, eu tava na briga também. O senhor deve me prender, mas peço que me solte às 3 da madrugada, que eu tenho que fazer pão.
O cabo não aceitou a proposta:
— Se ocê quiser, eu te prendo, mas solto às 8 da manhã, junto com o resto da turma.
— Assim não dá… — insistiu o Paca. — Se eu não for trabalhar de madrugada, a freguesia fica sem pão.
O cabo topou negociar. Soltaria às 7h, uma hora antes do resto da turma. Não dava. Era tarde demais pro Paca, que propôs ser solto às 4h. O cabo não aceitou. Negociaram mais sum pouco e o Paca foi solto às 5h. O pão saiu atrasado, mas saiu… E o Paca não ficou com fama de ter culeio com a polícia.
Roubar frangos e cozinhar em algum bar de madrugada era uma tradição na cidade. Frango comprado não tinha graça. Alguns bares ofereciam a cozinha, os próprios fregueses faziam o frango ensopado, com arroz, e o bar só cobrava o arroz e as bebidas. Uma época, voltou para a cidade o Tonho Rafante, que morou uns tempos em São Paulo, trabalhando como torneiro mecânico. Comprou um bar perto da praça e ele virou ponto dos ladrões de frango.
O bar só abria de noite e de madrugada. Os fregueses iam lá beber umas cachaças, alguns bebiam cerveja, e lá pelas 10h ou 11h saíam para roubar frangos. Iam geralmente em duplas, cada uma com destino a um quintal e voltavam umas duas horas depois. Às vezes era difícil, acontecia até de não conseguirem roubar nenhum, pois alguns donos de frangos ficavam de plantão na horta. Mas às vezes sobravam. Uma dupla voltava com dois frangos, outra com um ou dois… Enfim, eram mais frangos do que seriam consumidos, pois na maioria das vezes a gente cozinhava apenas dois ou três.
O Tonho criou uma espécie de “depósito de frangos” roubados, um galinheiro onde ficavam os excedentes. Em dias difíceis, quando não se conseguia roubar nenhum ou chovia, cozinhavam alguns desse “depósito”. Nessa época eu morava em São Paulo, mas viajava bastante para lá e era um dos frequentadores do bar do Tonho e dos galinheiros da vizinhança.
Um dia, mudou-se para a cidade um roceiro, seu Ângelo, que foi morar numa casa a uns duzentos metros do bar. Tinha um quintal bem grande e levou para lá muitos e muitos frangos. Um paraíso para os frequentadores do bar do Tonho! E virou lugar preferido para os roubos, por uns tempos.
O seu Ângelo ficava indignado, mas o que fazer? Um dia saiu anunciando que tinha comprado uma espingarda e ia “passar fogo” nos ladrões de frango que se atrevessem a invadir seu quintal. No dia seguinte, quando saiu de casa, ao passar pela sapataria ao lado, o sapateiro perguntou:
— E aí, seu Ângelo. Suas ameaças deram certo?
Ele fez uma cara de tristeza e respondeu:
— Nada, sô… Dessa vez levaram até o rei do terreiro.
Foi pura maldade: carne de galo é dura e demora pra cozinhar…
A vitória do Napoleão
Falando no Tonho Rafante, um dia eu fui pra Nova Resende e o ônibus deu uma parada num boteco na entrada da cidade, para descer uns passageiros. O Tonho e outro amigo, o Tião Péia, estavam no bar bebendo cerveja, me viram dentro do ônibus e o próprio Tonho gritou:
— Desce aqui. Vem beber uma cerveja com a gente, estamos comemorando a vitória do Napoleão.
— O que aconteceu com o Napoleão? — perguntei.
— E isso é lá vitória? — contestei.
— É sim, uai. Ele sofreu do coração a vida inteira e morreu de cirrose.
Na casa da Marcolina, a bebida não era cara, a gente podia beber cerveja por um preço praticamente igual ao de um boteco qualquer. Mas era também uma fonte de renda. Pouca renda.
Uma época tinha lá umas moças que gostavam de dançar, uma delas, belíssima, usava o nome de guerra Denise. Apesar de ser péssimo dançarino, eu dançava um pouco com ela, ao som de um rádio fanhoso.
As moças, como em quase todos os estabelecimentos do tipo, pediam pra gente pagar bebidas pra elas, como recomendava a cafetina. Mas acho que não davam tanto lucro assim. Quanto ela lucrava com uma cerveja ou um vermute? Ah, e tinha pinga também. Nada de preços de bares de hoje em dia, em que uma dose de cachaça custa uma grana. A pinga custava muito pouco na cidade, o preço de um litro da marvada equivalia ao que custa hoje em dia o equivalente a meia dose na Vila Madalena. Uma dose no boteco da cidade custava quase nada, era bebida de pobre mesmo. Bebedor de cachaça tinha até fama ruim, era “cachaceiro” que não tinha grana pra beber uma cerveja. E na casa da Marcolina o preço não era tão diferente.
Bom, entre as mulheres que apreciavam uma bebida tinha a Faísca, moça nova. Um dia eu estava lá, ela veio rebolando pro meu lado, se exibindo, chegou bem pertinho e falou: “Benhê, paga uma pinga?”.
Paguei rindo… e brinquei com os amigos: “A Faísca não dá lucro nenhum pra Marcolina”.
Churrascaria sem churrasco
Termino me lembrando da tentativa de abrir uma churrascaria na cidade, numa época em que o pessoal de lá não tinha o hábito de almoçar ou jantar fora. Um amigo mais velho, o Fausto (que depois se dedicou a produzir uma boa cachaça) abriu a Churrascaria Balaio e ela era bem frequentada, mas não por gente que queria almoçar ou jantar, era por quem frequentava bares para beber. E tinha uma novidade: havia espaço para dançar. Resultado: muita gente bebendo e dançando, mas nada de pedido de refeições.
O Fausto acabou vendendo a churrascaria para o Fulano (não vou “entregar” o cara) e na “gestão” dele a única coisa que tinha para comer nela era azeitona.
Numa das minhas idas a Nova Resende, muitos anos depois que me mudei de lá, ocupei uma mesa perto da entrada da churrascaria, com um amigo morador da cidade, e fiquei tentando adivinhar de que família eram as pessoas que entravam, só pela cara. Com população pequena na época, baseado apenas nas minhas lembranças da aparência física, dava para adivinhar muitas. “Deve ser filha de alguém da família tal”, eu dizia e o amigo confirmava, com raros erros.
Uma hora entrou uma moça com cara que eu não conseguia imaginar de que família era. O amigo falou: “É filha do Beltrano, namorada do Cicrano” (também não vou citar o nome desses personagens). Justamente nesse momento, o dono estava abrindo uma cerveja para nós, e ao ouvir o nome do Cicrano, que ele odiava, virou-se para a moça e falou brabo pra ela:
— Mulher que trepa com um sujeito daqueles é porque tem raiva da b…!
