Falta de vergonha
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Ao contrário do Japão, não existe no Brasil a cultura da vergonha. É o que se aprende com a leitura do livro O Crisântemo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa, da antropóloga norte-americana Ruth Benedict, que descreve o ethos japonês como uma cultura da vergonha, atualmente escassa no mundo político brasileiro. No Japão feudal do século XVI, muito possivelmente um tribuno envolvido num escândalo como o recente caso do Banco Master cometeria haraquiri, suicídio ritualístico praticado até a Era Meiji, sendo abolido apenas em 1868.
Trata-se, claro, de uma metáfora. Ninguém espera que um magistrado, um político ou um governante venha a se suicidar porque foi flagrado numa situação desonrosa. Os samurais praticavam o ritual do suicídio para limpar o nome, evitar a desonra ou cumprir o dever. No Brasil, o apontado deveria renunciar à política, abrindo mão de suas funções e vestir o pijama, como forma de reconhecimento dos seus desvios. E sem salário, claro.
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Benedict relata que se impõe para o povo japonês uma forte identificação entre ponderação e dignidade, o que pressupõe a vigilância implacável dos atos individuais por alteridade/coletividade sempre disposta a julgar.
A dignidade se cultiva, dizem os japoneses, "por causa da sociedade", destaca a antropóloga. Dessa forma, são as sanções externas que ratificam a honra e a dignidade individuais, ou seja, da opinião pública que, no Brasil, infelizmente, ainda não alcançou este estágio civilizatório.
O que se pode esperar de juízes que se beneficiam de negócios mal explicados ou que mantém relação de camaradagem explícita com suspeitos, cujas munificências ilegais foram expostas por investigações da Polícia Federal.
A atitude desses controversos integrantes do Poder Judiciário deveria mudar frente à reação contrária da opinião pública, que não pode se limitar a assistir, mas denunciar sua falta de vergonha e exigir deles que se comportem como líderes honestos ou, então, que sigam para casa. Exceto honrosas exceções, não é isso o que vem ocorrendo.
Se a reação se limitar a denúncias e críticas, através da imprensa ou das tribunas do Legislativo, dificilmente os apontados serão levados a interiorizar uma consciência moral que os leve a reconhecer a culpa. É necessário, portanto, impedi-los de atuar em nome do Poder Judiciário.
Em alguns casos, o ilícito não precisa se materializar. Somente a intenção mal disfarçada de um ato moralmente recriminável em relação aos valores que deveriam defender e orientar sua atuação já bastaria para configurar a falta de vergonha de quem deveria ser um paradigma a respeitar.
