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Pais tentam estabelecer “limites” a um bebé de dez meses. Faz sentido?

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03.03.2026

O nosso bebé tem dez meses e chora sempre que fazemos algo para estabelecer limites, e não pára até que lhe demos o que quer. O meu marido e eu somos pais pela primeira vez e estamos a tentar descobrir a melhor maneira de lidar com esse tipo de situação.

Estabelecer “limites” é algo que se faz com o parceiro, o filho adolescente ou pré-adolescente, talvez até mesmo com uma criança de 3 anos. Mas com um filho de dez meses? Isto não tem a ver com limites.

Criar um filho de dez meses consiste exclusivamente em conexão e vinculação, porque essas são as necessidades primárias dessa idade. Tudo o que o seu filho precisa para se tornar um adulto seguro começa com a forma como ele se liga aos seus cuidadores. Portanto, as suas perguntas orientadoras podem ser algo como: “Como dar (ou não dar) este brinquedo ao meu filho o ajudará a confiar em mim?” ou “Como o confortarei quando não puder dar-lhe esse brinquedo?”

Discutir sobre como uma criança de dez meses deve perceber limites, sofrer consequências ou aprender lições, é inadequado, sobretudo para o seu desenvolvimento. Tudo isso só servirá para prejudicar o relacionamento com o seu bebé. Se deixar a vida seguir o seu curso natural, verá que há momentos em que pode satisfazer as necessidades do seu filho (o que é parte das suas funções e a coisa certa a fazer) e outros em que não pode corresponder aos desejos dele.

Por exemplo, o seu filho quer levar um peluche para as compras, mas sabe que provavelmente o brinquedo se perderá no supermercado. Deixa para trás o peluche no carro, apesar de o seu filho estar a chorar por ele. Isso é normal.

Um bebé quer o que quer (uma característica da idade), e os pais devem agir como o córtex pré-frontal dele e tomar essas decisões. Isso não é um “limite”; é uma boa e racional educação parental. A sua única tarefa é abraçá-lo e dizer: “Sim, eu sei que é difícil que o boneco não possa entrar na loja connosco... fica aqui à tua espera”.

Como uma criança de dez meses não tem pensamento racional, nem a capacidade de pensar sobre os temas, o choro é uma parte normal da rotina. Se ele chorar e você devolver o boneco, isso é um problema? Não, mas também não estará a cumprir o papel dos pais de tomar as decisões mais sensatas. Perder definitivamente o peluche é um problema maior, então deve tomar as medidas adequadas para proteger o seu filho disso. Difícil? Sim. Mas adivinhe? Terá de agir como o córtex pré-frontal do seu filho por muitos anos, então é melhor que se habitue agora. Não é “manter limites”, mas simplesmente o seu trabalho.

Se está a negar actividades ou objectos ao bebé para “endurecê-lo” ou “ensinar-lhe quem manda”, está a provocar sofrimento desnecessário a si mesmo e a ele. Não há “aprendizagem” nenhuma aí. Imagine que o seu parceiro estava com pressa para ir trabalhar e você queria um abraço. Ele só lhe conseguiu dar um abraço rápido, e isso deixou-a triste. Mas ele precisava sair e compreendeu.

Agora imagine que o seu parceiro está sentado e a leitora pede-lhe um abraço, mas ele simplesmente o nega. Diz-lhe “não” porque pode, sem justificar. Vai sentir-se rejeitada, magoada e talvez zangada.

Se o seu parceiro a abraçar apenas porque choramingou e ficou com lágrimas nos olhos, pode sentir-se temporariamente melhor, mas vai criar um novo hábito: as suas necessidades serão atendidas apenas se chorar. Começou um ciclo de insegurança, quando é muito mais simples apenas satisfazer as necessidades de alguém. Ou deixá-lo chorar com amor, se não o puder ajudar.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post


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