O futuro já não é o que era
Há uma pergunta que atravessa o nosso tempo, embora raramente seja formulada: o que aconteceu ao futuro? Falamos dele constantemente. Falamos do futuro da democracia, da Europa, do trabalho, do clima. Governos tentam antecipá-lo, empresas prometem-no, especialistas calculam-no e máquinas procuram prevê-lo. E, no entanto, tornou-se difícil imaginar um futuro que não seja apenas uma versão mais intensa do presente.
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O futuro aparece sobretudo como ameaça. Guerra, crise económica, alterações climáticas, automação, migração, envelhecimento. Quando não surge como catástrofe, aparece como previsão, reduzido a probabilidades, gráficos e cenários. Há sempre qualquer coisa prestes a acontecer e quase nunca tempo para perguntar que mundo gostaríamos de encontrar depois disso. Quando a incerteza se torna excessiva, voltamos ao passado, à procura de identidades perdidas, fronteiras nítidas e de uma ordem que talvez nunca tenha existido como a recordamos.
Temos muitos discursos sobre o futuro, mas cada vez menos futuros propriamente ditos. Uma previsão diz-nos o que poderá acontecer. Um futuro, no sentido mais forte da palavra, exige outra coisa: conceber aquilo que ainda não existe e aceitar que algumas escolhas podem aproximá-lo ou afastá-lo. Quando essa diferença desaparece, ficamos com previsões, alertas e planos de contingência. Falta qualquer coisa mais difícil de medir: uma ideia de destino coletivo. Tornámo-nos melhores a produzir o futuro do que a imaginá-lo.
Durante boa parte da modernidade, o futuro foi uma força política. A democracia, as lutas sociais, os movimentos de emancipação e a construção europeia nasceram, apesar das suas diferenças, da convicção de que o presente não era definitivo. O mundo podia mudar de forma. A injustiça não precisava de durar para sempre. Havia a sensação, hoje menos evidente, de que a história não estava apenas a acontecer connosco. Também podia ser feita por nós.
A Europa fala hoje muito de autonomia. E tem boas razões para o fazer. A invasão da Ucrânia tornou visíveis dependências que durante anos pareceram toleráveis, enquanto a competição tecnológica e a instabilidade internacional voltaram a colocar questões que Bruxelas durante muito tempo tratou como assuntos contingentes. A dificuldade aparece quando essa autonomia deixa de ser uma palavra e passa a ter um preço.
Exige dinheiro, indústria, energia, capacidade militar e decisões que nem sempre coincidem com a conveniência imediata de cada capital. A União........
