Vamos aprender o verbo restaurar
Antes de restaurar a natureza, talvez seja necessário restaurar o vocabulário. Não me vou perder hoje no “treuze” nem na “perca” da nossa identidade linguística, mas numa palavra agora em discussão pública: restauro. Há quem prefira “restauração ecológica”. A expressão não está errada, mas, em Portugal, leva-nos mais depressa a uma ementa do que a um ecossistema. Na restauração sentamo-nos à mesa. No restauro levantamo-nos para reparar o que degradámos.
A diferença não é apenas gastronómica. Restaurar a natureza não significa ornamentá-la, mas recuperar funções ecológicas, como a capacidade de um solo reter água e sustentar vida, de um rio comunicar com as margens estruturadas, de uma zona húmida amortecer cheias, de peixes ou linces voltarem a reproduzir-se ou de uma cidade oferecer sombra e habitat.
Não quero ser aquele que está sempre a apontar o dedo ao erro ou a indignar-se com tudo o que poderia ser feito melhor. Quero também reconhecer o que merece ser valorizado. Portugal está, finalmente, a aprender a conjugar este verbo. O Plano Nacional de Restauro da Natureza merece reconhecimento porque procura organizar a recuperação dos ecossistemas degradados e dar coerência a intervenções dispersas, para lá da obrigação europeia. Durante demasiado tempo, a conservação viveu na defensiva ao protegermos o que restava e travarmos apenas perdas. Isso continua a ser indispensável, mas não basta num território onde rios estão interrompidos, solos perdem diariamente matéria orgânica, zonas húmidas desaparecem, habitats........
