Confissão das torturas da conversão sexual
Dá-me vontade de chorar quando lhes chamam terapia. Claramente nunca viram o filme Laranja Mecânica. E não, não estou a comparar o protagonista desse filme — um psicopata descontrolado — com alguém que simplesmente não é heterossexual ou cisgénero. O que comparo é a equipa de supostos médicos que aparece no filme de Kubrick, que tenta converter à força através de métodos violentos, estimulando a culpa e até induzindo o vómito, numa tentativa de obrigar alguém a deixar de ser aquilo que é.
Quando entrei para o seminário, em Itália, não podia prever que me iria apaixonar por um homem. É verdade que já sabia que sentia atração por homens, mas a minha fé e o desejo de ser padre sobrepunham-se à minha orientação sexual. O meu desejo espiritual parecia ser mais forte. Por isso, foi tão surpreendente para mim como para o grupo de padres que me julgou de forma impiedosa, bem longe dos valores de compaixão de Cristo. Assim que a minha relação com outro jovem seminarista foi descoberta, fui sujeito às mais diversas alarvidades, e suponho que tenham feito o mesmo ao outro rapaz. Nunca mais o vi. Nem sequer sei se sobreviveu àquilo que nos fizeram.
Como sabem, muitos de nós acabam por tirar a própria vida depois destas torturas a que chamam terapias. Durante vários meses, sinceramente não sei quantos, porque deixei de contar, um velho, a quem chamavam conselheiro espiritual, tentava «livrar-me do Mal». Fazia-o através de orações intermináveis que, por vezes, duravam noites inteiras, insultos físicos e psicológicos, e vários rituais de «limpeza espiritual» que incluíam fechar-me num armário escuro. Não podia ser mais literal. Numa dessas curas tive, por exemplo, de simular o meu próprio funeral. A isto somavam-se espancamentos e exorcismo. Muitas vezes pensei que tinha ido parar ao século errado. Não podia ser real que algo assim acontecesse em pleno século XXI. Mas aconteceu.
Quando me perguntam porque não saí do seminário, porque não fugi, a resposta é simples: a certa altura eu estava convencido de que sofria de um mal grave que precisava de ser curado.
Saí do seminário — não por minha vontade, simplesmente fui mandado embora por ser «um caso perdido» — e quis sujeitar-me a terapias consideradas médicas. Sei que em muitos países já foram proibidas há muito tempo, mas em Itália não. A tortura psicológica a que fui submetido incluía tentar identificar uma suposta causa para a minha orientação sexual, apresentada como uma experiência «anormal», e criar uma associação de aversão (utilizando, por exemplo, eletrochoques ou medicação que induzia vómitos) para combater a minha atracção por homens. Posso dizer-vos que tentei de tudo. E nunca estive tão perto de tirar a minha própria vida como no dia em que pensei em comprar uma corda para me enforcar. Nessa altura, a minha família já me tinha rejeitado. Estava completamente sozinho. Depois de tantas tentativas para ser «normal», eu próprio me sentia uma aberração.
Quando pesquisei «onde comprar uma corda para me enforcar», dou graças a Deus — sim, a minha relação com Deus mantém-se saudável; sei que Ele não tem culpa das religiões inventadas pelos homens — por me ter surgido o Telefono Amico Cevita, uma linha de apoio psicológico gratuita, em vez de uma loja online que me vendesse uma corda suficientemente forte para me desprender da vida. Tive sorte. E tenho a certeza de que foi Deus a intervir no algoritmo. Falei com uma rapariga que me encaminhou para um grupo de apoio. Não vou dizer que foi fácil voltar a sentir o meu próprio corpo, ou deixar de ter nojo de mim. Ainda hoje há dias em que tenho recaídas. Mas cá estou, se não por mais nada, pelo menos para vos dizer que nunca deixem alguém que amam passar por esse processo medieval e inútil a que chamam terapias de conversão sexual. Posso garantir-vos que são torturas.
