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A nova ordem global passa pelo Atlântico

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23.03.2026

Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Vivemos um momento de inflexão na ordem econômica global. As cadeias de valor reorganizam-se, os fluxos de investimento reposicionam-se e os grandes blocos procuram afirmar-se num ambiente marcado pela incerteza e pela crescente competição estratégica.

É neste contexto que a relação entre o Brasil e Portugal — e, de forma mais ampla, entre a União Europeia e o Mercosul — assume uma importância que vai muito além da herança histórica e cultural que nos une. O que está hoje em causa é posicionamento global, influência geoeconômica e capacidade de projetar futuro.

Durante demasiado tempo, esta relação foi tratada como uma evidência confortável. Mas no mundo atual, nenhuma relação estratégica sobrevive sem intenção política clara e, sobretudo, sem execução. Portugal, pela sua história, pela sua credibilidade institucional e pela sua integração europeia, reúne condições únicas para se afirmar como plataforma de ligação entre a Europa e a América do Sul. No entanto, uma ponte só tem valor quando é efetivamente utilizada.

A distância entre o potencial e a realidade continua a ser significativa. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul, há mais de duas décadas em negociação, é o símbolo maior dessa incapacidade de transformar ambição em decisão. Num contexto global onde outros blocos avançam com rapidez e assertividade, a hesitação europeia traduz-se em perda de relevância e de oportunidades.

Entretanto, o Brasil consolida-se como uma potência global incontornável. A sua escala, a diversidade da sua base produtiva, a abundância de recursos naturais e o seu papel central em áreas como a segurança alimentar e a transição energética colocam-no no centro das dinâmicas globais. A União Europeia, por sua vez, mantém vantagens competitivas claras ao nível da tecnologia, do capital, da inovação e da sofisticação regulatória.

A complementaridade é evidente. O potencial é extraordinário. Mas o potencial, por si só, não gera crescimento, nem cria prosperidade partilhada. É necessária decisão política, visão estratégica e capacidade de execução.

Mais do que discursos, o momento exige ação. Exige simplificação administrativa, redução de barreiras, previsibilidade regulatória e um ambiente favorável ao investimento. Exige também uma maior articulação entre governos e setor privado, reconhecendo que são as empresas que, no terreno, transformam oportunidades em realidade.

Neste quadro, Portugal pode — e deve — assumir um papel ativo como facilitador e catalisador desta relação. Não apenas como interlocutor institucional, mas como plataforma efetiva de entrada, circulação e expansão de investimento entre a Europa e o Brasil.

A história oferece-nos uma base sólida. A língua aproxima-nos. A cultura cria confiança. Mas o futuro exige mais: exige coragem para decidir, rapidez para executar e ambição para liderar.

Porque, no final, não será o passado que definirá o nosso lugar no mundo, mas a capacidade de transformar uma relação histórica num verdadeiro projeto estratégico de futuro.


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