Quando a dicotomia cidade-campo é combustível para a extrema-direita
Nas democracias europeias, as cidades sempre foram vistas, politicamente, como mais progressistas, em oposição a um conservadorismo, para muitos, quase “inerente” do “campo” — essa expressão insensata e injusta a que designamos toda a área não citadina.
Nas cidades, as forças progressistas, designadamente de centro-esquerda, sempre alcançaram resultados eleitorais bastante promissores e as suas ideias — especialmente em termos sociais —, são aguerridamente defendidas por uma parte significativa dos seus residentes. Ao mesmo tempo, ao “campo” é associada a imagem de um conservadorismo nefasto, associado às velhas convenções sociais. Não é surpresa que movimentos conservadores consigam arrecadar bons resultados eleitorais e uma implantação a nível local mais forte.
Este é um padrão espelhado nos resultados eleitorais, das eleições locais, de inúmeros países europeus. Um dos exemplos mais recentes é o de França. Não obstante inúmeras cidades continuarem nas mãos dos partidos de centro, incluindo Paris que continuará a ser governada pelo centro-esquerda, a extrema-direita consegue arrecadar, em termos gerais, uma grande parte das municipalidades do país em questão, desejosa de demonstrar que também se consegue impor em termos locais.
Há alguns anos, poderíamos pensar que esta realidade era de algum modo uma fatalidade da natureza da dicotomia "cidade-campo" e de quem faz de cada um desses sítios a sua casa. Aliás, para quê reflectir seriamente sobre uma questão que parece que tem mais a ver com a orgânica da organização territorial do que com um combate de ideologias? O problema entra quando esta desconexão política entre “a cidade e o campo” alimenta ideologicamente os movimentos de extrema-direita com eficácia e resultados práticos, especialmente em tempos de polarização como aqueles que enfrentamos.
Parte da narrativa da actual extrema-direita europeia concentra-se nas “elites”. Essa massa abstracta que assume a forma de tecnocratas que através dos seus escritórios modernos e inalcançáveis servem interesses próprios ou muitas vezes "desconhecidos e sombrios". Esse “eles” que não conhecem os problemas das “pessoais reais” e que não as representam. E onde é que essas pessoas se encontram? Nas cidades, símbolo dessas mesmas elites. Já em toda a área que não representa essas elites, estão as “pessoas reais”, aquelas que trabalham o dia inteiro, receptoras de um salário miserável e desprovidas de valor social segundo o olhar daqueles que "decidem por elas".
É desta percepção que se constrói uma das narrativas mais poderosas da actual extrema-direita. E é exactamente por isto que esta dicotomia política entre cidade-campo é tão relevante na forma como devemos analisar politicamente o crescimento dos movimentos de extrema-direita que anseiam chegar ao topo da governação política também nas grandes cidades e não apenas no "campo" e como o podemos combater.
Para tentar desmontar esta narrativa de predação das elites da política e da sua associação com as cidades, usualmente as capitais, é fundamental apostarmos num diálogo cada vez mais próximo entre os cidadãos de ambos os pólos. Para isso acontecer, é necessário um diálogo frutífero que ultrapasse slogans e que apenas será possível quando a "cidade" e o "campo" possuírem infra-estruturas, ligações rodoviárias e ferroviárias e outro tipo de aspectos, que possam transpor esse diálogo para a realidade diária dos cidadãos. Em última instância, necessitam de ser adoptadas políticas públicas direccionadas à coesão territorial dos países, para que as disparidades territoriais não se tornem uma arma política destes movimentos extremistas.
Um país que se escuta a si mesmo, em que os seus cidadãos independentemente de onde moram sintam que aquilo que os une é mais forte do que aquilo que os separa e no qual a coesão territorial não seja apenas um sonho mas também um reflexo da realidade vivida pelos seus cidadãos, é um país mais saudável. Um país no qual a democracia se pratica. Um país no qual os movimentos de extrema-direita não conseguem tornar a disparidade entre "a cidade" e "o campo" num combustível para o seu motor do ódio.
