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Lagos: uma memória a ser substituída por outra

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13.08.2026

Foi ali, em Lagos, que a 28 de Julho de 1415 Mestre Frei João de Xira anunciou aos 20.000 homens de armas e de outras artes que espalhados pelo vasto areal da praia assistiam à missa por ele celebrada, que o destino de todos era Ceuta.  Fizera-o em nome do Rei, D. João I, de quem era confessor. Também ele estava ali, num palanque partilhado com os seus três filhos mais velhos: Duarte, Pedro e Henrique.

Era domingo. A armada em que toda aquela gente vinha embarcada fora chegando à baía de Lagos na véspera. Os 200 navios que a compunham haviam zarpado de Lisboa quinta-feira, 25, assim se cumprindo o que estava destinado havia tempo. Nem o luto carregado em que dez dias antes, a 15, o Reino mergulhara, por morte da Rainha, Dª Filipa de Lencastre, nem nisso o Rei viu razão bastante para alterar os planos.

“Lá do alto”, onde agora estava, ela haveria de sentir-se tomada de júbilos. No dia certo, que era aquele, a armada tinha alevantado âncoras e aparelhado velas para se fazer ao mar, em vencendo a boca do Tejo. Como ela quis que fosse, de tal vontade dando conhecimento ao Rei, que fazia dias a acompanhava no seu leito de morte no convento de Odivelas.

A revelação em Lagos do destino de tão grossa armada, quebrara um segredo ciosamente guardado havia quatro anos. Para bom sucesso da conquista de Ceuta, decidida em 1411, era preciso guardar dela grande segredo. A construção de tantos navios nas terecenas de Lisboa e Porto havia de dar nas vistas e, por via disso, fazer despertar naturais curiosidades, como de facto aconteceu: a que servia tamanho afã?

A guarda do segredo, tão cerrada se quis que ela fosse, servia um fim superior: evitar que os mouros e a mourama soubessem que se preparava a conquista da sua Cepta – a antiga e famosa Ábila romana, por eles tomada em 709. Em tempos como aqueles, ainda tão dominados pelo espírito das cruzadas – Constantinopla só cairia em 1453 – haveriam de reunir quanta força fosse preciso para não abrir mão de praça tão famosa.

Nunca em tempo algum se reunira tamanha armada, levando nela tanta gente de guerra, toda ela tomada de fervores religiosos. O poder que nela vai – todo o poder que o Rei e o Reino puderam reunir, como dirá Zurara – é esmagador. Mas a “defenção” de um alvo em que a aproximação é por mar tem sempre vantagem, mais ainda quando devidamente........

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