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Médico sábio ou médico «prompt»

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30.10.2026

Prever o futuro é um exercício tão difícil e talvez tão inglório como adivinhar o número vencedor duma próxima lotaria. Mesmo admitindo que a lotaria é o paradigma da aleatoriedade e que outras previsões podem basear-se nos dados de que dispomos hoje, as variáveis mudam a uma velocidade tão estonteante e com tamanha dispersão que a capacidade de previsão, se existe, parece reservada a um punhado de quiromantes, de astrólogos ou de iluminados. Muito se tem dito e escrito acerca do que serão a medicina e o médico do futuro, mas pouco se poderá adiantar, penso, para além dos desafios do presente e do que se julga que acontecerá amanhã.

Em artigo recente (European Heart Journal, 2026; 47: 3030–3033), um dos mais prestigiados cientistas cardiovasculares da Europa, o suíço Thomas Lüscher, discorria sobre os desenvolvimentos previsíveis dos sistemas de inteligência artificial e de machine learning. Concluía que a cardiologia não desaparecerá, mas sofrerá uma transformação radical para se adaptar às mudanças trazidas pela tecnologia digital. O cardiologista do futuro, aliás, o médico do futuro, pouco terá que ver com o modelo que inspirou gerações e que ainda hoje (por quanto tempo?) habita a imagem que dele têm as pessoas comuns.

Decantado por séculos de história e de testemunhos transmitidos, esse modelo exige do médico sapiência e actualização científica, competência técnica, capacidade de escutar, observar e discernir, compaixão e presença mesmo quando falham as soluções, humanidade, integridade e humildade intelectual. São-lhe exigidos elevados padrões éticos e clínicos e, diferentemente do que acontece noutras actividades humanas, está permanentemente sujeito ao escrutínio dos doentes, dos pares e da própria comunidade. Ser médico não é ter uma profissão como as outras; implica uma devoção e uma doação permanentes. Este modelo, eternizado em obras como The Doctor, de........

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