Sentença das Urnas? Rejeitado!
O crescimento de André Ventura da primeira para a segunda volta não é particularmente expressivo e dificilmente será replicado em eleições legislativas;
Para alguém que se diz disruptivo, obter 33% numa eleição a dois é manifestamente insuficiente;
Não se aproximou do número de votos alcançados pela AD nas últimas legislativas. E os votos é que elegem deputados.
António José Seguro foi eleito o próximo Presidente da República com legitimidade reforçada. E a sua vitória demonstra que os portugueses continuam a preferir a democracia liberal, a moderação e a estabilidade institucional e política. Tem sido assim desde 1975. O povo escolhe sistemática e consecutivamente o centro moderado, quer de esquerda, quer de direita, rejeitando os extremos.
Se a segunda volta das presidenciais era, como alguns proclamaram com grande entusiasmo, um plebiscito ao regime, então com dois terços dos votos o tal “regime” foi reconfirmado com selo, carimbo e fita dourada. Quem mais tentou transformar as eleições num referendo pessoal acabou a ser… referendado. E não exactamente da forma que desejava. Ironias da vida política!
Ventura, previsivelmente, veio logo destacar que a percentagem que obteve agora superou a da AD nas legislativas. Factualmente, é verdade. Mas, como ele próprio sabe melhor do que ninguém – até porque teve menos percentagem do que o PS nas legislativas e, ainda assim, ficou líder da oposição graças a ter mais dois deputados – percentagens não elegem deputados. Votos é que contam. E estes, desta vez, não lhe deram a história que queria contar.
Não obstante, o líder do Chega tratou de apresentar o resultado como uma vitória épica do “anti‑sistema contra o sistema” – embora nem ele tenha parecido muito convencido da história que contou. O feito verdadeiramente histórico que conseguiu foi outro: unir esquerda, centro e direita numa espécie de pacto tácito para lhe dizer “não”. Assim, perdeu para alguém que estava politicamente invisível desde 2014.
E o exemplo da primeira volta também ajuda a pôr as coisas em perspectiva. António José Seguro teve 31,12% e 1.755.764 votos. Ou seja, com menos percentagem do que Ventura agora, teve mais votos do que ele. Portanto, a narrativa de que foi necessária uma “união nacional” em torno de Seguro para garantir a vitória não encontra grande apoio nos factos – nem pequeno, já agora.
No terreno, Ventura, que andou por “terra a terra a tentar convencer os portugueses” conseguiu a proeza de perder em todos os distritos. Até na Europa perdeu, incluindo na Alemanha, Áustria e Países Baixos. Venceu em apenas 6% das freguesias e, mesmo em freguesias tradicionalmente de direita, muitos eleitores preferiram votar em branco. Em bom português: a direita olhou para o boletim, olhou para Ventura e decidiu que não era por ali. Usando o estilo pouco elegante que o próprio costuma adoptar, o “Tózero” acabou por lhe dar uma banhada monumental.
Na última semana de campanha, Ventura ainda tentou a cartada dramática, insinuando uma espécie de boicote à segunda volta ao defender o adiamento do acto eleitoral. Os portugueses, pouco impressionados com a encenação, responderam da forma mais simples: foram votar. Qual foi a sentença das urnas? Rejeitado! Ventura não venceu em nenhum dos concelhos afectados pelo mau tempo e, em alguns, teve até menos votos do que na primeira volta. Também aqui, a estratégia correu-lhe mal.
Assim, volto a sublinhar: o que ficou realmente evidente foi a rejeição inequívoca de Ventura pela maioria do eleitorado português. Certezas? É o chefe do Chega; não é, por muito que insista, o líder da direita. E um Ventura visivelmente abatido e sombrio deixou isso transparecer no discurso de concessão. Curiosamente, esse discurso teve duas metades bem distintas. A primeira foi quase… institucional. Digna, até. Parecia um candidato do “sistema” que ele tanto despreza. Terá sido um momento de humildade? Seja o que for, não é coisa que entusiasme muito os seus seguidores. Por isso, sem surpresa, na segunda parte regressou ao Ventura habitual.
Por falar em discurso, que mostrou a comparação entre o do vencedor e o do derrotado? Um mimo. Ventura, sempre tão sensível às desgraças alheias, lá conseguiu… esperem… desculpem, afinal nem um suspiro para as pessoas afectadas pelo mau tempo. Zero! Nem uma miga de empatia para amostra. Deve ter sido daquelas preocupações de prazo curto, que só duram enquanto a câmara está ligada e o slogan encaixa. Depois fecha-se a loja da solidariedade e siga para bingo – perdão, para a tal maioria sem elites e, pelos vistos, também sem aqueles atingidos pelas intempéries.
Já António José Seguro – esse perigoso infiltrado do sistema que, imagine-se, não se aproveitou da tragédia nem dos condicionalismos – teve a ousadia de abrir o discurso a pensar nessas pessoas. Que ultraje! Quase parece que falou delas por genuína preocupação, e não porque dava jeito para o soundbyte. Onde é que já se viu? Enfim, os discursos confirmaram tudo o que vimos na campanha. Uns contam votos, outros preocupam-se com as pessoas.
Quanto à extrapolação dos votos obtidos nas presidenciais para eleições legislativas, dificilmente deixará de ser um exercício de imaginação criativa. Nas presidenciais existe apenas um círculo nacional; nas legislativas, pelo contrário, os círculos são distritais e produzem dinâmicas e resultados substancialmente diferentes. Assim, a probabilidade de o PS e o Chega reproduzirem em legislativas as votações que António José Seguro e André Ventura obtiveram agora é, para ser generoso, bastante reduzida.
Por fim, na tabela seguinte estão os resultados obtidos pelos segundos classificados nas presidenciais realizadas nesta Terceira República. Tirem as vossas conclusões sobre percentagens e votos. Mas não se esqueçam que são os votos que determinam a eleição e a distribuição dos deputados.
Post-Scriptum: Duas ideias para discussão posterior.
Ouve‑se frequentemente a afirmação de que muitas pessoas votaram em Ventura pela primeira vez. Contudo, também houve eleitores que votaram em Seguro pela primeira vez. Importa, por isso, perguntar qual o verdadeiro significado desses votos inaugurais. Representam uma adesão profunda a um projecto político, um voto circunstancial, um protesto, ou simplesmente a escolha possível naquele momento?
Karl Marx criou um corpo doutrinário que, para muitos dos seus seguidores, funcionou como uma espécie de religião civil, imune ao questionamento e aceite quase como verdade revelada. A questão que se coloca é se o populismo da extrema‑direita – ou, mais precisamente, da direita situada à direita da direita tradicional – exemplificado pelo venturismo, não reproduz um padrão semelhante de crença dogmática e impermeável à crítica.
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