A Inteligência Artificial vai mudar tudo. Só que não é já
Quando ouço o alarido à volta da IA e da disrupção iminente, procuro alguma serenidade olhando para o passado. As revoluções tecnológicas começam com surpresa, barulho e maus presságios. A revolução agrícola reconfigurou populações, trabalho e poder — mas não numa estação. A industrial reorganizou fábricas, cidades e capital — mas não no dia da máquina a vapor. A da informação mudou a forma como trabalhamos e vivemos — mas a Internet não digitalizou a economia nos anos 90.
A inteligência artificial pertence a essa linhagem. Não é uma moda passageira, nem uma mera funcionalidade de software: é uma tecnologia de aplicação geral que acabará por se infiltrar em quase todas as instituições e profissões. Mas o timing desse «acabará» é o que importa. A transformação real está muito mais distante do que sugerem tanto os evangelizadores como os profetas da desgraça.
Pode parecer contraintuitivo, porque esta transformação avança, de facto, mais depressa do que as anteriores. Modelos que pareciam prodigiosos há dois anos são hoje banais. E a IA é transversal, afetando quase todos os setores — direito, banca, energia, saúde, educação, media, Estado, logística. A adoção, essa, é global desde o primeiro instante: um estudante em Lisboa, um programador em Nairobi e uma startup em Bangalore usam as mesmas........
