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A inovação invisível não conta

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No contexto empresarial que vivemos “inovação” é a palavra mágica. Aparece nos discursos dos CEOs, ocupa páginas inteiras dos relatórios anuais e é a primeira exigência de qualquer investidor com um mínimo de ambição. Todos querem inovar e todos dizem que inovam. Isto porque no universo das grandes empresas sabe-se que, tal como na Roma antiga, não basta ser – tem que parecer.

Antes que alguém torça o nariz e diga “isso é marketing, não é inovação,” vale a pena pensar no assunto com mais cuidado. A verdade é que a inovação tem um problema de visibilidade. Um algoritmo brilhante que otimiza uma cadeia de abastecimento, um processo redesenhado que poupa milhões, uma nova experiência digital que muda a forma como o cliente interage com a empresa — tudo isto pode ser transformador. Mas se ninguém souber que aconteceu, o impacto não é totalmente capturado. Isto porque os mercados não recompensam apenas resultados — recompensam potencial. Um investidor não investe no que a empresa já fez; investe no que acredita que ela vai fazer. E para acreditar, precisa de ver sinais. As organizações que viram as costas à comunicação não só deitam a perder parte das suas conquistas mas desmoralizam aqueles em quem mais deviam de apostar.

É por isso que as empresas mais sofisticadas investem em relatórios de inovação de alto impacto, organizam demo days onde mostram protótipos ao vivo e levam as suas equipas a conferências internacionais. Não é vaidade. É sinalização. É dizer ao mundo: Estamos atentos, estamos a mexer-nos, estamos preparados para o que aí vem. Numa era em que setores inteiros podem ser varridos do mapa em meia dúzia de anos, esta sinalização tranquiliza investidores, atrai talento e reforça a credibilidade da marca. Empresas que inovam em silêncio arriscam-se a ser percebidas como estagnadas mesmo que estejam a fazer um trabalho extraordinário dentro de portas.

No entanto, é sempre importante notar que esta demonstração não pode redundar em teatro. É aqui que muitas organizações se perdem. Caem na armadilha das aparências. Inauguram laboratórios de inovação com móveis de design e paredes de vidro, organizam hackathons com nomes apelativos que não produzem consequências, emitem comunicados de imprensa sobre projetos “moonshot” que nunca saem do PowerPoint e publicam fotografias dos CEOs rodeados de jovens startups. É inovação performativa — feita para a fotografia, não para o mercado. E o problema é que os tempos mudaram e as pessoas estão mais sofisticadas. Os colaboradores percebem, porque continuam a trabalhar com os mesmos processos de sempre. Os investidores percebem, porque os números não mudam. Os clientes percebem, porque a experiência continua igual e o público em geral percebe porque já viu o filme várias vezes. E quando isto acontece, o efeito é contraproducente: em vez de confiança, gera-se cinismo. Em vez de entusiasmo, instala-se a descrença.

O desafio, portanto, está no equilíbrio. Como comunicar inovação sem cair na ficção? A resposta é mais simples do que parece: narrativa autêntica apoiada por impacto mensurável. Em vez de dizer “estamos a investir em inteligência artificial” — uma frase tão vaga que não só não significa nada como indica que não se percebeu bem o que é a IA — mostre-se como é que a aplicação da tecnologia reduziu o tempo de resposta ao cliente. Em vez de promover o laboratório de sustentabilidade com um vídeo bonito nas redes sociais, demonstre-se que as emissões de carbono da cadeia de valor caíram X toneladas no último ano. Números falam mais alto do que slogans. Resultados concretos valem mais do que promessas vagas.

A transparência, essa palavra tão usada e tão pouco praticada, é aqui fundamental. As empresas devem, sim, celebrar os seus sucessos. Mas devem igualmente partilhar as lições que retiraram dos fracassos. Porque a verdadeira inovação envolve risco, e risco significa que algumas, se não muitas,  apostas vão correr mal. Quando uma empresa admite abertamente que tentou algo que não funcionou e explica o que aprendeu e o que fez diferente a seguir está a construir algo muito mais valioso do que uma manchete: está a estabelecer credibilidade. Está a sinalizar que a inovação não é uma manobra de relações públicas com prazo de validade. É um processo duro, disciplinado, contínuo e honesto.

No mundo das startups, isto é quase um dado adquirido — o fracasso faz parte da narrativa. Mas nas grandes empresas, admitir o erro continua a ser um exercício de coragem raro. E é precisamente por ser raro que é tão poderoso quando acontece.

Há ainda outra dimensão que muitas vezes se esquece: a comunicação interna. Mostrar inovação não é apenas para fora — para investidores, analistas e jornalistas. É, talvez antes de tudo, para dentro. Os colaboradores precisam de ver progresso. Precisam de sentir que fazem parte de uma organização que se move, que experimenta, que valoriza quem tem ideias e a coragem de as executar. Celebrar as vitórias do intraempreendedorismo, destacar projetos que nasceram do cruzamento entre equipas, dar visibilidade a quem arrisca e inova no quotidiano. Tudo isto alimenta uma cultura onde a inovação não é um departamento, é um estado de espírito e quando as pessoas se sentem parte da história, tornam-se os seus maiores embaixadores. Nenhuma campanha de comunicação substitui um colaborador genuinamente orgulhoso da sua empresa.

No fim de contas, a inovação é simultaneamente prática e narrativa. As duas não competem — complementam-se. Fazer sem mostrar é como pintar uma obra-prima e virá-la para a parede. Mostrar sem fazer é teatro. O ponto ideal está em fazer e mostrar com integridade: contar a história com números reais, vitórias honestas e fracassos assumidos. Para tal esta realidade deve estar totalmente integrada na estratégia de comunicação de qualquer grande empresa.

Num mundo onde a disrupção está ao virar da esquina, as empresas que dominarem este equilíbrio estarão melhor posicionadas para vingar. Porque, no final, inovação não é apenas aquilo que se constrói. É aquilo que se demonstra. E mostrar significa tornar o invisível, visível de forma estratégica, autêntica e continua.

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