Um Elogio para Luís Represas
Não é preciso ser um fã dos Trovante para ficar triste com a morte do Luís Represas. Para a minha geração é impossível em Portugal ele não ter-se atravessado à nossa frente e não sabermos cantar de cor canções que fez.
Assim de memória, a canção dos Trovante que primeiro teve mais impacto em mim nem era totalmente dos Trovante: foi o “Perdidamente”, que iniciou na Florbela Espanca os miúdos que chegavam à adolescência no final dos anos 80. Fazia parte do disco “Terra Firme”, o melhor deles.
À medida que o rock virou a minha vida do avesso, encontrei nele um dos assuntos que mais me simplifica a existência: se alguma coisa é rock, mesmo uma coisa que não é musical, é boa; se uma coisa não é rock, não me interessa. Sejamos sinceros: os Trovante nunca foram rock.
Daí que à medida que me armava em duro, afastei-me do “Perdidamente” e ainda mais do resto da discografia que ouvia com mais presunção de dever rejeitar. Sentia que tinha razões para isso: talvez a maior fosse aquela preservação conscenciosa de folclore misturada com o alívio de o fazer em semi-jazz. Ainda hoje me irrita um pouco.
Se a pessoa se puser a ouvir os primeiros discos dos Trovante recorda-se do país interessante que fomos depois de 1974. A música popular tornou-se abrileira e, portanto, mais colorida. Afinal, o Salazar tinha-nos tornado cinzentos........
