Há uma forma de aumentar impostos: taxar a hipocrisia do PS
A hipocrisia ainda não paga imposto. Devia. Ver políticos socialistas que tiveram responsabilidades diretas na política de habitação, como Pedro Nuno Santos e Marina Gonçalves, aparecerem numa manifestação a exigir soluções para uma crise que não conseguiram resolver enquanto governantes é, no mínimo, um exercício extraordinário de falta de memória política. No limite, justificava uma coima por falta de autocrítica. Pedro Nuno Santos foi ministro das Infraestruturas e da Habitação desde fevereiro de 2019 até janeiro de 2023. Marina Gonçalves, que já tinha sido secretária de Estado da Habitação, sucedeu-lhe na pasta ministerial em janeiro de 2023, mantendo-se no cargo até abril de 2024.
Não estamos, portanto, a falar de comentadores que assistiram à crise de fora. Estamos a falar de responsáveis políticos que tiveram poder, tempo e instrumentos para intervir. E, no entanto, ei-los na rua, de cartaz na mão, a exigir soluções para um problema que também faz parte do seu legado governativo. Como se a falta de casas acessíveis tivesse aparecido por geração espontânea. Como se os preços incomportáveis, as dificuldades dos jovens em comprar casa e a escassez de habitação pública fossem fenómenos meteorológicos pelos quais nenhum Governo responde. A pergunta impõe-se: onde estavam estas exigências quando tinham a responsabilidade de governar?
A manifestação é legítima. O direito ao protesto não desaparece quando alguém passa pelo Governo. Mas a legitimidade do protesto não apaga a responsabilidade política de quem teve oportunidade de agir e não conseguiu apresentar resultados à altura das necessidades. E os manifestantes que os apuparam não precisaram de um tratado de ciência política para perceber a ironia. Afinal, Pedro Nuno Santos e Marina Gonçalves foram protestar contra uma crise que atravessou os anos em que exerceram responsabilidades governativas. Foram, em certa medida, manifestar-se contra o próprio legado. É uma imagem politicamente poderosa e bastante incómoda para quem prefere falar do problema sem começar por explicar a sua própria contribuição para ele.
O programa 1.º Direito foi apresentado como um instrumento fundamental para responder às carências habitacionais indignas, com uma meta política associada ao 50.º aniversário do 25 de Abril, em 2024. Chegada essa data, a pergunta não é se o programa existia no papel. É quantas famílias conseguiram efetivamente uma habitação digna, quantas casas foram concluídas e entregues, quanto dinheiro foi executado e quantas necessidades continuavam por satisfazer. Anunciar um programa não é resolver um problema. Aprovar financiamento não é entregar uma casa. E........
