IA e a erosão da escrita
“Já não penso como pensava. Sinto-o com mais intensidade quando estou a ler. Antigamente era-me fácil mergulhar num livro ou num artigo longo. A minha mente deixava-se envolver pela narrativa (…) e eu passava horas a percorrer extensos trechos de prosa. Isso raramente acontece agora. Hoje, a minha concentração começa muitas vezes a dispersar-se ao fim de duas ou três páginas. Fico inquieto, perco o fio à meada, começo a procurar outra coisa para fazer. Sinto como se estivesse constantemente a arrastar o meu cérebro irrequieto (…). A leitura profunda, que antes me saía naturalmente, tornou-se um esforço” – Nicholas G. Carr, em The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains (2010).
Todos os dias chocamos, nas redes sociais (em particular, no Linkedin) e nos media, com textos produzidos por inteligência artificial generativa, sobretudo pelo Chat GPT, sem qualquer edição significativa ou incorporação de valor por parte de quem os publica. São textos que nunca seriam, por falta de capacidade, escritos por quem os assina, resenhas de livros que não foram lidos e posts que se limitam a iludir o leitor e alimentar o ego de quem os redigiu. Nesta multiplicação de conteúdo “arrumadinho” mas superficial, o culto da aparência e um suposto “direito à opinião” (a qualquer custo e produzida sem esforço) estão a destruir o compromisso com a verdade ou com um pensamento mais qualificado, os únicos que poderão, a prazo, assegurar a sobrevivência dos órgãos de comunicação social e de tudo o que de positivo (ainda) representam.
Há duas décadas (2005), o filósofo norte-americano Harry G. Frankfurt publicou a sua obra, “On Bullshit”, onde descreveu, com mestria, um dos fenómenos mais perniciosos da cultura digital contemporânea. O bullshit não é propriamente uma mentira, já que esta pressupõe uma relação instrumental com a verdade (algo que Frankfurt explora no........
