Muito investimento, pouco desporto: o paradoxo do PTRR
O Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR) surge num momento particularmente exigente para a gestão das finanças públicas e para a definição de prioridades de investimento em Portugal. Num contexto de crescente pressão sobre os recursos do Estado, agravado por choques externos e pela necessidade de reforçar a resiliência estrutural do país, o plano assume-se como um instrumento agregador de financiamento e de orientação estratégica. A sua ambição é clara: proteger infraestruturas, mitigar riscos e melhorar a capacidade de resposta coletiva. No entanto, quando analisado na perspetiva do desporto, enquanto setor com relevância económica e potencial de criação de valor, torna-se evidente que há ainda um caminho significativo por percorrer.
Importa, desde logo, reconhecer um sinal positivo que enquadra esta análise. O lançamento do Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo introduziu uma lógica de planeamento que historicamente tem sido insuficiente no setor. A definição de metas para o aumento da prática desportiva, a articulação com o sistema educativo e a preocupação com a inclusão representam avanços relevantes. Esse enquadramento estratégico cria condições para uma maior previsibilidade das políticas públicas e para uma melhor afetação de recursos. Ainda assim, a passagem dessa visão para instrumentos financeiros e económicos consistentes permanece incompleta.
No âmbito do PTRR, o desporto surge maioritariamente associado à dimensão infraestrutural. A reabilitação de equipamentos, a sua adaptação a fenómenos climáticos extremos e a melhoria da eficiência energética constituem áreas de investimento com impacto direto. Do ponto de vista financeiro, estas medidas são justificáveis, na medida em que contribuem para a preservação de ativos públicos e para a redução de custos operacionais no médio prazo. No entanto, a análise económica não pode limitar-se à ótica da despesa de capital executada. A ausência de modelos claros de exploração, de indicadores de retorno e de mecanismos de responsabilização levanta dúvidas sobre a eficiência do investimento.
Em termos práticos, persiste uma tendência para dissociar o financiamento da utilização efetiva dos equipamentos. A lógica dominante continua a privilegiar a execução orçamental em detrimento da criação de valor. Sem planos de negócio que assegurem taxas de ocupação elevadas, diversificação de receitas e gestão profissionalizada, existe um risco material de transformação de investimento público em encargos permanentes.
Este risco é particularmente relevante num contexto em que as finanças locais enfrentam constrangimentos crescentes e em que a sustentabilidade de longo prazo dos ativos deveria ser um critério central de decisão.
Paralelamente, o enquadramento do desporto no PTRR permanece essencialmente instrumental. A sua ligação à saúde pública, à coesão social e à inclusão é reconhecida e deve ser valorizada. Contudo, essa abordagem, embora necessária, é manifestamente insuficiente do ponto de vista económico. O desporto representa hoje uma cadeia de valor complexa, com impacto em áreas como o turismo, os serviços especializados, a formação de recursos humanos e a projeção internacional do país. Ignorar esta dimensão significa limitar o potencial de retorno do investimento público e reduzir a capacidade de o setor contribuir para o crescimento económico.
A inexistência de medidas orientadas para a dinamização do investimento privado é, neste contexto, particularmente relevante. A........
