Regressámos a 2006
Nos resultados do PISA divulgados a 8 de setembro, Portugal está de volta ao início do século. Em Matemática, 460 pontos: abaixo de 2003 (466) e o pior resultado desde que há série comparável. Em Leitura, 462: abaixo de 2000 (470), o pior de sempre. Em Ciências, 482: a órbita de 2006 (474), dezanove pontos abaixo do pico de 2015 (501). A OCDE escreve sem eufemismos que os ganhos anteriores foram completamente revertidos nas três matérias.
Vale a pena lembrar de onde caímos. Em 2015, Portugal ficou pela primeira vez acima da média da OCDE nas três áreas, e Andreas Schleicher, o diretor de Educação da OCDE, deixou de nos tratar como país de maus alunos e passou a citar-nos como uma das grandes histórias de sucesso da Europa. Dez anos depois, apagámos essa história.
A erosão é dos dois lados da distribuição. A percentagem de alunos abaixo do nível mínimo de proficiência subiu onze pontos em Matemática e em Leitura desde 2015. No topo, a escassez é ainda mais reveladora: 6% de alunos de excelência em Ciências (OCDE: 7%), 6% em Matemática (8%) e 3% em Leitura, metade da média da OCDE. O sistema ainda garante um patamar mínimo a muitos. Já não oferece excelência a quase ninguém.
Em anos de escola, a conta é simples. A OCDE trata cerca de vinte pontos na escala PISA como um ano de aprendizagem. Portugal caiu, desde 2018, 32 pontos em Matemática e 30 em Leitura: ano e meio de escola perdido em sete anos de calendário. Desde o pico de 2015, a Leitura caiu 36 pontos, quase dois anos. Os alunos que fizeram o teste em 2025 tinham nove anos quando as escolas fecharam na pandemia. A pandemia explica uma parte. A queda começou antes dela e continuou depois de ela acabar.
O que um aluno de quinze anos já não sabe fazer
Os pontos do PISA são abstratos. Vale a pena traduzi-los. A OCDE divide a escala em seis níveis e trata o nível 2 como o mínimo para funcionar numa sociedade moderna. Em Leitura, um aluno no nível 2 consegue identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada, encontrar uma informação quando lhe dizem o que procurar e refletir sobre o que leu se lhe pedirem explicitamente. Um aluno abaixo desse nível consegue, quanto muito, localizar uma informação explícita numa passagem curta e simples sobre um assunto que já conhece. Não retira o sentido de um texto seguido. Em Portugal, 28% dos alunos de quinze anos estão abaixo do nível 2 em Leitura. Mais de um em cada quatro. Em 2015 eram 17%.
Em Matemática, o nível 2 é conseguir, sem que ninguém lhe diga como, traduzir uma situação simples em números: comparar a distância total de dois percursos alternativos, converter um preço para outra moeda, perceber uma fatura. Em Portugal, 35% dos alunos de quinze anos não chegam lá. Um em cada três; em 2015 era um em cada quatro. Em Ciências, o nível 2 é reconhecer a explicação correta de um fenómeno familiar e dizer, num caso simples, se uma conclusão é válida à luz dos dados. Não chegam 24%. E 18,6% dos alunos portugueses estão abaixo do mínimo nas três áreas ao mesmo tempo: um em cada cinco adolescentes que vão votar daqui a três anos não lê um texto seguido, não converte um preço e não distingue uma conclusão válida de uma inválida. Andreas Schleicher avisa que o número real é maior, porque o PISA não testa quem já abandonou a escola nem quem não domina a língua da prova.
O que a OCDE observou dentro do próprio teste é mais preciso do que qualquer percentagem. Nas questões cujos textos passam de 400 palavras, uma página de livro, os alunos de 2025 saíram-se muito pior do que os de 2018. O mesmo nas questões que pedem para refletir, avaliar ou cruzar várias fontes. Os alunos não desaprenderam a decifrar; desaprenderam a aguentar. A OCDE chama-lhes leitores apressados: passam a correr pelo texto e dão respostas rápidas e erradas. Quase duplicaram desde 2018. E o dano tem sexo: em Leitura, os rapazes portugueses caíram 21 pontos desde 2022, as raparigas 8. O fosso entre eles é agora de 33 pontos, mais de ano e meio de escola, acima da média da OCDE.
No outro extremo estão os níveis 5 e 6: os alunos que compreendem textos longos, lidam com ideias abstratas ou contraintuitivas e distinguem factos de opiniões por pistas implícitas; em Matemática, os que modelam situações complexas e escolhem entre estratégias para as resolver. É deles que sai a investigação, a engenharia, a medicina que conta. Em Matemática, são 54% dos alunos nas quatro jurisdições chinesas, 37% em Singapura, 23% na Coreia, 22% no Japão, 13% no Reino Unido. Em Portugal, 6%. Em Leitura, 3%: numa turma de trinta, um aluno. Um país que produz um leitor de excelência por turma não vai produzir a ciência que decidirá a sua prosperidade. Vai importá-la, e pagá-la.
É isto que “ano e meio de escola” quer dizer. Não é um índice que baixou. É um terço de uma geração que não converte um preço e um quarto que não lê uma página.
Antes de procurar culpados, quatro perguntas. É falta de dinheiro? É uma maré que arrasta toda a gente? É a imigração? E porque é que esta queda, ao contrário das anteriores, vai sair muito mais cara do que as contas acima sugerem? Respondo por ordem: não, não, um quarto, e por causa da máquina que os nossos filhos já trazem no bolso.
Em dólares, gastamos por aluno menos do que a média da OCDE: 12.956 contra 15.023 por ano, do básico ao superior. Medida contra a riqueza do país, porém, a despesa por aluno é das mais altas da OCDE, 29% do PIB per capita contra 25% na média, e no secundário passa dos 30%. Fazemos um esforço acima da média para um resultado abaixo dela. Se o problema fosse o orçamento, já estaria resolvido.
Também não é um sistema uniforme a produzir resultados uniformes. Em Ciências, o quartil socioeconómico mais favorecido está 92 pontos acima do mais desfavorecido: quatro anos e meio de escola entre dois miúdos da mesma idade e do mesmo país. Entre os 25% mais pobres, 39% não atingem o nível mínimo em Ciências; entre os 25% mais ricos, 6%. E os nossos alunos favorecidos ficam abaixo dos alunos igualmente favorecidos de Singapura e da China. A escola falha os pobres e não compensa os ricos.
Quem pode paga a dobrar e foge para o privado ou para o explicador das sete da tarde. Já votou com a propina. Está na altura de o resto da sociedade votar também.
A desculpa seguinte é a maré. Portugal fica perto da média da OCDE: 30.º em Matemática, 26.º em Leitura, 29.º em Ciências, entre 90 países e economias. E a média também caiu. Nos países da OCDE, um em cada cinco alunos de quinze anos é agora fraco nas três matérias ao mesmo tempo, contra 16% em 2022. Estar no mesmo barco a afundar não é estratégia, é companhia.
Mas nem toda a gente desceu. Dentro da OCDE, as Ciências subiram na Costa Rica, na República Eslovaca, na Turquia e no Reino Unido. Fora dela, subiram no Camboja, em El Salvador, na Geórgia, na Jordânia, na Mongólia, no Montenegro, nas Filipinas, na Arábia Saudita e na Tailândia. A Turquia, a República Eslovaca, o Montenegro, o Catar e os Emirados fizeram as duas coisas ao mesmo tempo: aumentaram a fatia de alunos de excelência e reduziram a de alunos fracos. E no topo, nas três áreas, mantiveram-se a maioria das jurisdições chinesas, Singapura, o Japão, a Coreia, Taiwan, a Estónia e o Reino........
