Vivemos todos no mesmo prédio?
Há algo de profundamente inquietante no facto de, em simultâneo, um jovem programador em São Francisco comprar ações de uma empresa que ainda não deu lucro com a mesma convicção com que um casal em Lisboa se endivida para trinta anos por um apartamento de cinquenta metros quadrados. São realidades distintas, em continentes distintos, mas partilham uma mesma lógica: a crença de que os preços só podem subir. Ora, quando esta crença se generaliza e, sobretudo, quando se desliga dos fundamentos económicos que a deviam sustentar, é legítimo perguntarmo-nos se não estamos, coletivamente, a construir castelos sobre areia.
Comecemos pelos mercados acionistas norte-americanos, onde os sinais de sobrevalorização são, no mínimo, dignos de reflexão. Os rácios preço-lucro do S&P 500 encontram-se em níveis que só foram atingidos em dois momentos da história recente: antes do colapso das dot.com em 2000 e imediatamente antes da crise financeira de 2008. Sabemos como ambos os episódios terminaram. Mais relevante ainda é a concentração absurda de valor num punhado de empresas tecnológicas (as chamadas “Magnificent 7”) que representam uma fatia desproporcional do índice. Bastaria que uma destas........
