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IA, educação e o colapso da modernidade

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01.04.2026

O debate sobre inteligência artificial continua preso a uma ilusão confortável: a ideia de que temos três, cinco ou mais anos para nos adaptarmos. Essa suposição não corresponde à realidade. A curva de evolução é exponencial, não linear, e o ponto de viragem mede se em poucos anos, talvez mesmo em meses. Possivelmente foi já ultrapassado em Novembro com o lançamento do Opus 4.6 (o modelo mais forte da Anthropic): tornou-se claro que a melhoria recursiva na IA está em curso e que, segmento a segmento, a transição do trabalho cognitivo humano para o baseado em IA já chegou.

Estamos perante o colapso silencioso das estruturas que definiram a modernidade: empregos, universidades, profissões, carreiras, sistemas de avaliação, modelos de autoridade. Tudo o que foi construído sobre uma premissa que deixou de ser verdadeira: a escassez de inteligência humana. A IA não está apenas a aumentar a produtividade. Está a absorver a própria inteligência. E quando a inteligência se torna um bem abundante, tudo se altera.

Daniel Kahneman classificou “inteligência” em dois sistemas cognitivos: um responsável pela intuição e outro responsável pela análise. A IA funciona como um 3º sistema: um motor cognitivo externo ao cérebro humano.

Um estudo recente da Wharton Business School, com mais de mil participantes, oferece um vislumbre do que aí vem: quando a IA está certa, a precisão humana aumenta 25%; quando a IA está errada, as pessoas seguem-na em 80% dos casos. A confiança aumenta, mesmo quando o desempenho se deteriorava. Os investigadores chamaram lhe “rendição cognitiva”.

Um estudo do MIT, recorrendo a imagiologia cerebral, chegou a conclusões semelhantes: participantes que usaram o ChatGPT apresentaram menor conectividade neural e dificuldade em recordar o próprio trabalho. Muitos viram isto como prova de que a IA nos está a tornar intelectualmente passivos.

É uma leitura errada, ou no mínimo simplista. O problema não é a IA. É como a usamos. Em 2005, o escritor de ficção científica Charles Stross imaginou um protagonista que expandia a mente através de um “exocórtex”: um conjunto de agentes de IA que ampliavam a sua cognição. Tornou se extraordinário. Só quando esse sistema externo lhe foi retirado é que colapsou. O “exocórtex” não o enfraquecia; fortalecia o. Perdê lo é que o destruiu.

O que Stross escreveu como ficção, a Wharton acaba de medir. A IA degrada o desempenho quando é usada de forma passiva. Mas quando é usada de forma ativa, questionada, desafiada, integrada torna se um multiplicador de capacidades. Os primeiros vencedores do estudo não foram os que evitaram a IA, nem os que confiaram cegamente nela. Foram os que a interrogaram. Esta distinção vai definir os próximos anos, não as próximas décadas.

À medida que os sistemas de IA aceleram, o custo marginal da inteligência aproxima se de ZERO. O custo de produzir bens e serviços segue o mesmo caminho. Setores inteiros baseados na escassez (conhecimento, credenciais, trabalho) serão abalados. As universidades, concebidas para um mundo onde o saber era escasso e lento a atualizar, terão dificuldade em justificar cursos de vários anos quando tutores de IA superam professores humanos e a aprendizagem personalizada se torna instantânea. A maioria dos empregos assentes em processamento de informação, análise ou decisões rotineiras será transformada ou desaparecerá.

A longo prazo, esta transição aponta para a abundância (e irá resolver problemas como a falta de profissionais de saúde, a crise na educação e até na habitação). Um mundo onde a IA gera riqueza extraordinária e satisfaz necessidades humanas a custo quase nulo. Um mundo onde todos podem ganhar. Mas as transições nunca são distribuídas de forma uniforme. Os primeiros vencedores serão os que aprenderem a pensar com a IA, não através dela. Os que a tratam como parceiro intelectual, não como oráculo. Os que mantêm agência cognitiva em vez de a cederem.

Este é o verdadeiro desafio para a educação. Não se os alunos vão usar IA: vão. A questão é se aprenderão a desafiá la. A detetar os seus erros. A preservar as capacidades mentais que atrofiam quando tudo é delegado. O papel das escolas não é proibir a IA, nem abraçá-la sem reservas, mas formar uma geração capaz de co-pensar com um sistema mais poderoso do que qualquer ferramenta criada pela humanidade.

O 3º sistema cognitivo chegou MUITO mais depressa do que esperávamos. A única questão é quem aprenderá a usá-la e quem deixará que ela pense por si.

PS1: Tenho filhos em idade escolar e em breve terão de realizar escolhas educativas, e é claro que as opções disponíveis hoje dificilmente se adequam ao mundo que vão encontrar quando concluírem a sua formação. Certamente em 3 anos o papel de um Professor (será que são precisos? para fazer o quê) numa sala de aula (será que vão existir? ou a educação far-se-á em comunidade(s)?) deveria ser radicalmente diferente.

PS2: Este texto poderia ter sido escrito por IA, e não me parece (no futuro) que isso seja relevante para quem lê.

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