Nós é que somos os adultos
1. O processo democrático em curso
Quando Alexis de Tocqueville fala sobre a democracia na América e considera que em breve se espalhará por toda a Europa como se se tratasse de uma força providencial, não estava a remeter apenas para o regime político democrático em sentido estrito. A democracia que ele encontrou na América notava-se nas mais básicas relações sociais, como uma vivência que se espalhava por todas as esferas e que igualizava todos os membros da sociedade.
Enquanto processo revolucionário, a democracia acabaria, assim, por transformar toda a sociedade, sobretudo na medida em que, como nota Hannah Arendt, as dinâmicas de persuasão passam a prevalecer sobre uma lógica anterior que se baseava na autoridade:
“A autoridade é incompatível com a persuasão, a qual pressupõe igualdade e opera mediante um processo de argumentação. Onde se utilizam argumentos, a autoridade é colocada em suspenso. Contra a ordem igualitária da persuasão ergue-se a ordem autoritária, que é sempre hierárquica.”
Encontramos aqui a essência dos regimes democráticos: baseados na igualdade, assentam na argumentação e na persuasão para a tomada de decisões. Respeitar a igual dignidade do outro significa não impor a nossa autoridade, mas convencê-lo ou persuadi-lo, através de argumentos racionais, de que a nossa solução é a melhor.
A força deste argumento é de tal ordem que a maioria de nós parece continuar a preferir este regime político a qualquer outro, mas o seu alargamento às restantes esferas sociais tem gerado problemas difíceis de resolver e que decorrem da falácia da democratização generalizada: por se considerar que a lógica democrática é a que gera melhores resultados em termos políticos, acredita-se que é útil aplicar as regras democráticas a todas as esferas da vida.
Esta generalização apressada da democracia é, por um lado, consciente e voluntária, sendo........
