Crianças felizes
Regressemos a Abigail Shrier e ao argumento, apresentado em Má terapia, de que adotamos, nas últimas décadas, uma abordagem terapêutica da parentalidade. Essa abordagem seria especialmente visível no facto de termos substituído uma linguagem moral por uma linguagem terapêutica quando apreciamos o comportamento das crianças: os miúdos deixaram de ser mal-educados e passaram a ter perturbações de comportamento, ansiedade social, transtornos alimentares ou problemas de processamento sensorial. Comportamentos que antes considerávamos errados hoje têm um diagnóstico.
O propósito, como quase sempre acontece, era bem-intencionado: queríamos crianças felizes. E por essa razão:
“Aprendemos a explicar aos nossos filhos as razões de cada regra e pedido. Nunca, nunca batemos. Aperfeiçoámos o “tempo morto” e demos explicações pormenorizadas para todo e qualquer castigo (que depois rebatizámos “consequência” para eliminar qualquer vergonha associada e fazer-nos sentir menos autoritários). Sermos pais bem-sucedidos tornou-se uma função com um único coeficiente: a felicidade dos nossos filhos a todo o momento. Uma infância ideal significava nenhuma dor, nenhum desconforto, nenhuma briga, nenhum fracasso – e absolutamente nenhum indício de “trauma”.”
O problema é que o objetivo não foi alcançado. Não tornamos as crianças mais felizes e todos os estudos apontam para índices inéditos de........
