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Um perigoso escândalo

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Em março de 1966, 400 anos depois de conflitos entre a Igreja Católica e a Igreja Anglicana que geraram mortes, ainda hoje, impossíveis de contabilizar com rigor, o Papa Paulo VI recebia, no Vaticano, em plena Capela Sistina, o Arcebispo da Cantuária. No dia seguinte era publicada uma declaração conjunta onde se destacavam “os esforços sinceros para remover causas de conflito e estabelecer a unidade”. Esta semana, o Papa voltou a receber o Arcebispo da Cantuária, pela primeira vez uma mulher, dizendo publicamente que “seria um escândalo se não seguisse o trabalho para superar as nossas diferenças”, e, como é óbvio, algumas pessoas acharam que foi uma vergonha. Onde é que já se viu um alto representante de uma confissão religiosa inspirada por Jesus Cristo apelar à reconciliação e a entendimento mútuos? Então não era de se ter dito “Para a Cantuária. Para a Cantuária rapidamente e em força”? Ou melhor, não era de se ter feito uns cartazes com a cara da Arcebispa, ao estilo do velho oeste americano, com o apelo cristão: Procura-se?

Segundo o Papa é um escândalo não continuar a procurar a unidade. Segundo outros, escandaloso é não acentuar a divisão. Para uns, o facto de várias confissões cristãs terem fomentado guerras entre si é contraproducente. Para outros, parece que é pena que as guerras religiosas tenham acabado. Quem não tem saudades do massacre da noite de S. Bartolomeu, do saque de Magdeburgo ou da batalha de Mühlberg? Quem não tem saudades desses momentos áureos de testemunho e afirmação acesa da Cristandade?

Ao que parece, outro momento chocante foi a bênção que a Arcebispa da Cantuária deu na Capela Clementina, uma capela situada na cripta da Basílica de São Pedro, imediatamente atrás do lugar onde repousam os restos mortais de S. Pedro. Trata-se, como é óbvio, de uma ofensa grave, em especial para S. Pedro que, ao que parece, até sogra tinha. Agora a sério: a verdade é que a referência inaugural aos apóstolos é algo que une a Igreja Católica à Igreja Anglicana e é essencial que o catolicismo se posicione com disponibilidade e generosidade nesse eixo. Tornar o túmulo dos apóstolos intimamente acessíveis é um gesto essencial que reconhece a universalidade do nosso próprio património. É lamentável que se considere que a posição correta seja semelhante à de um portageiro. Não temos só algo a ensinar à Igreja Anglicana. Também temos algo a aprender.

Têm-me dito, no entanto, que não há um pingo de machismo nesta posição. E têm razão. É machismo em dose cavalar. Desde Paulo VI, todos os Papas com um pontificado superior a 33 dias encontram-se com o “chefe” da comunhão Anglicana. João Paulo II chegou a dar uma bênção em simultâneo com o Arcebispo da Cantuária. Não houve qualquer problema. Bento XVI, em visita ao Palácio Lambeth, declarou não ser a sua intenção deter-se “nas dificuldades que o caminho ecuménico encontrou e continua encontrar”, mas “dar graças pela profunda amizade que cresceu entre nós e pelo progresso notável feito em tantas áreas de diálogo”. Também não houve qualquer incómodo. Ainda no ano passado o Papa Leão XIV rezou com o Rei Carlos III,  na capela Sistina, num gesto único em 500 anos. Não houve qualquer tensão. Qual é a diferença agora? Pela primeira vez o Arcebispo da Cantuária é uma ela.

A semana passada, na viagem de regresso a Roma, o Papa disse que a Igreja não deve girar em torno de questões de sexualidade, afirmando que há questões “muito mais amplas e importantes”, como a justiça, a igualdade ou liberdade. Infelizmente há pessoas que não pensam o mesmo.

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