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Uma carta de amor do pai Lobo Antunes

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21.03.2026

Quando morre alguém famoso, por vezes há quem vá para a comunicação social presumir uma grande intimidade com o finado, que até trata pelo nome próprio – a Sophia, o António, etc. – presumindo uma grande amizade entre ambos. Claro que essa falta do mais elementar pudor é, precisamente, prova do contrário pois, se fosse verdadeira a amizade, não se serviriam da memória dessa pessoa, e muito menos da penosa circunstância do seu falecimento, para se exibirem.

Dito isto, devo confessar que, embora tenha um amigo comum com António Lobo Antunes, não tive a honra de o conhecer. No entanto, por ocasião do seu desaparecimento, li uma sua crónica que vem a propósito do Dia do Pai, celebrado no passado dia 19, em que a Igreja festeja São José. O marido de Maria não gerou Jesus de Nazaré, mas fez as vezes de seu pai, assumindo legalmente a sua paternidade. Dele era especialmente devoto o Papa Francisco, que introduziu o seu nome em todas as orações eucarísticas.

Nesse delicioso texto de António Lobo Antunes – publicado na Visão, a 17-5-2018 – encontrei uma curiosa analogia entre os nossos pais, pois ambos se interessavam pelo estudo dos seus antepassados. Com efeito, também “O meu pai passou boa parte dos últimos anos da sua vida às voltas com a árvore genealógica da família, juntando papéis de toda a ordem, fotografias, tralha variadíssima, esquemas cheios de setas, obsessivo como sempre, miudinho, numa busca feroz de exactidão”.

No caso de Lobo Antunes, o pai não conseguiu transmitir ao seu primogénito esse interesse pelo passado da família, enquanto o meu pai logrou........

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