As instituições do Ensino Superior públicas (IES) mereciam m
Muito se tem escrito sobre o ensino superior nos últimos tempos, ainda que também seja verdade que, muito do que se diz e escreve, tenha muitos anos…
Ou seja, nada de verdadeiramente novo.
E, de facto, há quantos anos não se debate o modelo de ensino superior para Portugal? Designadamente, se binário, se unitário, sendo certo que, pelo menos até agora, todos os governos vêm defendendo a manutenção do modelo binário.
Eu próprio, na minha tese de doutoramento que defendi em 2023, defendo a manutenção do sistema binário, com base na argumentação que, detalhadamente, expus.
O atual Governo, na proposta de lei que apresentou ao Parlamento e que está agora a ser analisada na respetiva Comissão, depois de aprovada na generalidade, propõe a manutenção do sistema binário, tal como a criação das designadas “Universidades Politécnicas”, integradas no subsistema politécnico.
Não pode, por isso, deixar de ser surpreendente que, em pleno processo legislativo, venha o Governo anunciar a criação de duas novas universidades clássicas, por transformação de dois dos atuais Institutos Politécnicos (o de Leiria e o do Porto) em universidades (ainda que à do Porto lhe acrescente a designação “Técnica” no nome), tendo-o inclusivamente justificado com os efeitos dos últimos temporais que, no que ao Porto se refere, foram inexistentes ou poucos danos causaram…
E mais surpreendente é quando o Ministro da Educação, Ciência e Inovação, Professor Fernando Alexandre, ele próprio docente universitário, vem anunciar, a fazer fé em vários órgãos de comunicação social, e a propósito da nova “Universidade de Leiria e do Oeste”, que ela manterá “o cariz politécnico” e que isto “dará uma maior capacidade de transformação e de qualificação das pessoas” (!). E ainda diz, já agora confundindo tudo mais um pouco, que a “criação da Universidade de Leiria e do Oeste não significa que tenhamos que acabar com os politécnicos” apenas “deixarão de se chamar institutos politécnicos e passarão a ser universidades politécnicas” (sublinhado meu) (in Jornal de Leiria). Mas então a questão é simplesmente a mudança de nome? E estando prevista na proposta de lei em discussão no Parlamento também a criação de universidades politécnicas (integradas no subsistema politécnico e diferentes das habitualmente designadas universidades clássicas, que integram o subsistema universitário), o Instituto Politécnico de Leiria passa a universidade politécnica ou a universidade clássica?
Se o sistema, de há muito, tinha um problema de diferenciação entre os dois modelos ou subsistemas, universitário e politécnico, com tudo isto maior confusão se instalará, colocando definitivamente em causa qualquer possibilidade de diferenciação entre eles. Ou seja, a partir daqui tudo se resume a uma questão de designação, com o poder político a não ter a coragem de assumir frontalmente que quer acabar com o sistema binário, passando o sistema a ser unitário. Lamentável, portanto.
Infelizmente, com todo este discurso, subliminarmente passa-se (passa o Governo e o Ministro) um atestado de incapacidade (ou pelo menos de menor capacidade) aos institutos politécnicos que, como muito bem sempre se disse, foram e são um motor de desenvolvimento para o País e para as Regiões onde estão inseridos. Criam-se as novas universidades porque os atuais institutos politécnicos não são suficientemente capazes de “responder às necessidades da região” onde estão inseridos.
Ora, o que verdadeiramente move estas instituições (eu diria, todas as IES) é aceder a maior financiamento. E como, lamentavelmente, as universidades sempre foram melhor financiadas que os institutos politécnicos, apenas e só por umas o serem e outros não, muda-se-lhes o nome e o modelo e o problema fica resolvido…
Pelo que se vê, ao Governo interessa esta situação. Talvez porque assim consegue aumentar o financiamento a umas mantendo as outras como estão, ou seja, prevalece a opacidade no financiamento das IES como sempre aconteceu.
As IES públicas mereciam melhor. Mereciam melhor financiamento, maior autonomia, maior respeito por parte dos poderes instituídos.
Receba um alerta sempre que Olímpio Castilho publique um novo artigo.
