Vemo-nos em Valhalla, Sr. José
O caminho para o médico era caro e inconveniente para o Sr. José. Durante anos, com maior ou menor periodicidade, a discussão com a mulher sobre a necessidade de ir ao médico sempre fora uma constante: ela que queria ir, que tinham que ir ver o doutor, e ele a cismar que quem ia ao médico arriscava-se era a sair de lá doente. “Eles hoje em dia descobrem o que não existe”, explicava. E acrescentava: “aqui de casa até ao doutor são vinte sete quilómetros, pagar a consulta, sem contar com o almoço, mais a gasolina para a Famel, contando a ida e a vinda, são quase cem paus”.
Mas lá acabava sempre por ceder. Afinal, a mulher insistia, insistia, e voltava a insistir, pelo que mais valia gastar os cem paus do que ficar a ouvi-la durante meses, até que, por exaustão, finalmente, aceitando a derrota naquela particular questão, desistir e gastar os 100 paus na mesma. E sempre assim foi, durante anos.
A vida, ainda que dura, não era já má de todo. Tratavam os dois da horta e dos bichos, ele ganhava algum nas obras, como pedreiro, por estes dias de reformado já só como biscate, e ela nas limpezas. Desde que os filhos tinham partido rumo a outras paragens e sonhos, os dias acumulavam-se numa rotina, cansativa, é certo, mas que no aconchego da repetição, junto com sensação de dever cumprido, traziam consigo aquilo que, com modéstia, poderia ser chamado de felicidade.
Certo dia, inesperadamente, chegou a casa para o almoço e encontrou a mulher caída no chão. Trombose. Fulminante. Morta. Foi o dia mais infeliz da sua vida. E desse modo aviltante, trágico, ainda que banal, se quebrou para sempre aquela rotina particular: num enterro, simples e bonito, apesar de um dos filhos não ter conseguido aparecer. Em três dias apenas o mundo inteiro do Sr. José tinha acabado.
A adaptação à vida de viúvo não foi feliz. Aos filhos, dois, emigrados em França, apenas os via durante o mês de Agosto. Agora que tinham mulheres de outros sítios já nem os via pelo Natal. Depois, telefonar para o estrangeiro era caro e, apesar da insistência dos filhos para mandar cartas pela internet — havia um computador na junta —, aquilo era coisa que não lhe fazia jeito, mais a mais agora que não tinha mulher a insistir que sim, que tinha que ser feito. “É a vida, a gente fá-los crescer e depois eles vão à vida deles”, costumava lamentar no café, enquanto beberricava um trago de aguardente, um velho prazer que reforçou na solidão de quem, agora, já não tinha hora para chegar a casa.
Ainda assim, a rotina, manhosa e despercebida, regressou. De manhã, tomava conta da horta; à tarde, ia para o café, à noite via televisão. E, a pouco e pouco, os biscates de pedreiro desapareceram dando lugar àquele novo quotidiano. Ao serão, talvez mais desinibindo pelo medronho, deu por si a comentar o programa na direcção da cadeira onde, agora, se sentava apenas a ausência da mulher. Perdeu peso, algo que a dona do café foi notando e comentando. “Sr. José, está ficando muito magro, tem que ir ao médico”. O Sr. José ria: “arre, que se há coisa boa da viuvez é não ter que discutir mais sobre ir ao médico”. E não foi.
O tempo passou, e junto com umas dores apareceu uma tosse estranha. Depois, foi uma falta de vigor, de força mesmo, que se instalou. Escoados uns meses, a conversa nocturna com a cadeira vazia que ainda escondia debaixo de si o cesto com os novelos de lã que ficaram por ser tricotados em camisolas ou cachecóis, passou a ser sobre o médico: “já te disse que não preciso de ir ao doutor, porra”, gritou ele, para o vazio. Mas, ainda nesse próprio dia, quando deu por si próprio incapaz de levantar-se da sanita porque lhe faltavam as forças nas pernas, lá acabou por ceder: “até depois de morta me ganhas a discussão, mulher”, lamentou. Mas assumiu: “amanhã vou ao médico”.
Nessa manhã seguinte, a Famel custou a pegar. Desde que a carrinha da Junta de Freguesia lhe tinha passado a trazer as compras a casa que não se lembrava da última vez que saíra de mota de casa. Ao fim de meia hora, por entre baforadas de monóxido de carbono que rapidamente se esfumava no frio da manhã, lá arrancou para fazer os vinte sete quilómetros até à vila. Em chegado ao centro de saúde, viu que a coisa estava diferente. As portas fechadas, as persianas do segundo andar corridas e apenas um enorme cartaz de propaganda........
