O futuro é uma boa obsessão
Quando chegámos ao ano 2000 eu estava a iniciar o segundo período do 10.º ano de escolaridade, tinha 14 anos e só faria os 15 em Outubro, quando o país já estava viciado no primeiro Big Brother, totalmente debruçado no pontapé de um ex-fuzileiro chamado Marco à Sónia, uma rapariga que colocou o país a discutir se «fazer sexo» era, ou não, «como comer um iogurte», e a fazer de um ajudante de trolha de Barrancos que cuidava de galinhas chamado Zé Maria a maior estrela nacional. O fenómeno da reality TV não era totalmente inédito em Portugal, mas, enfim, foi aquele o primeiro grande pontapé de saída para um movimento que não voltámos a largar: o de tornar o anónimo célebre sem causa alguma. Enfim, tudo isto merece uma reflexão mais profunda, mas não será considerado um exagero se tivermos em conta que foi ali que brotou com a força de um vulcão a sociedade entretida, emocional, escandalizada. Daí à contaminação total da política e do jornalismo foi um pulo não particularmente difícil de dar.
Certo é que no ano 2000, apesar do semi-pânico mais ou menos generalizado com o bug do milénio, ainda se vivia relativamente longe do apocalipse permanente........
