menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Desastre

30 0
06.10.2026

Regresso a um tema que já aqui abordei, a propósito de uma confissão de Manuel Alberto Valente. Esse caso era simples: num artigo publicado na revista do Expresso, Valente revelava que, encontrando-se a cumprir serviço militar, em 1971, executando um trabalho que consistia na mobilização de médicos para a guerra de África como capitães milicianos, foi contactado por um amigo que esperava que se pudesse evitar a mobilização. Valente, por entre um longo auto-elogio, confessa que conseguiu dar o amigo como já mobilizado, evitando a partida do amigo para a guerra. Não se lembrou, nem em 1971, nem mais de cinquenta anos depois, que um qualquer outro desgraçado desprovido de amigos nos serviços acabou por ir combater para as colónias no seu lugar. E recordo o caso porque ele se mantém absolutamente vivo.

O caso que ficou conhecido como o das “gémeas luso-brasileiras” (de resto, uma designação terrível e que, em bom rigor, não é sobre as duas crianças, mas sobre tudo o que tristemente as envolveu) voltou recentemente à discussão pública, depois de terem sido acusados o ex-secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, além do filho do ex-presidente da República, Nuno Rebelo de Sousa, ou a mãe das meninas. O caso, mais uma vez, não é complicado. Talvez pareça, na medida em que envolve uma doença rara de duas crianças, naturalmente destituídas de qualquer culpa ou responsabilidade, e de uma mãe que, de forma até certo ponto compreensível, fez o que pôde e o que não pôde para as ajudar, não olhando a meios ou consequências. É humano, como nem uma besta pode deixar de constatar. O que não é humano em todo aquele caso é o facto de se continuar a viver num país onde resiste e persiste a ideia de que um bom canal........

© Observador