A imigração legal é a verdadeira ameaça ao establishment
Os partidos europeus tradicionais convenceram-se que tinham encontrado a fórmula mágica para falar de imigração: serem implacáveis no discurso contra a imigração ilegal e generosos com a imigração legal.
A fórmula tinha tudo para funcionar. Permitiria à direita afirmar que defendia fronteiras, tranquilizaria a esquerda quanto ao respeito pelos direitos humanos e deixaria ao centro o confortável papel de árbitro entre segurança e solidariedade.
Só que os eleitores começaram a estragar o arranjo.
Na Alemanha, a AfD chega hoje às eleições regionais da Saxónia-Anhalt com mais de 40% nas sondagens e uma vantagem que chegou aos 15 ou 20 pontos sobre a CDU. Se vencer, será mais uma fronteira política ultrapassada por um partido que, ainda há poucos anos, grande parte do sistema alemão tratava como uma aberração temporária. A AfD já foi a segunda força nas eleições federais de 2025 e deixou de ser apenas um fenómeno do protesto oriental. A hipótese de chegar ao poder deixou de pertencer à ficção política.
Em França passa-se algo talvez ainda mais revelador. Marine Le Pen prepara-se para disputar as presidenciais de 2027 numa posição que seria impensável há uma década. Já não se discute apenas se chegará à segunda volta. Discute-se se poderá ganhar. As sondagens publicadas neste verão colocaram essa possibilidade no centro do cenário presidencial francês.
Podemos continuar a chamar-lhes populistas, radicais, extremistas ou qualquer outra palavra que permita adiar a pergunta desagradável. Mas a ciência política tem um conceito mais útil para o que está a acontecer do que qualquer rótulo moral. O politólogo norte-americano James Hollifield descreve há mais de três décadas aquilo a que chama o “paradoxo liberal”: os Estados democráticos precisam de abertura económica — incluindo abertura a mão-de-obra estrangeira — mas dependem, para se manterem legítimos aos olhos dos seus cidadãos, de uma capacidade de fecho político que essa mesma abertura corrói. Nenhum destes partidos inventou o problema. Limitaram-se a ser os primeiros a admitir que ele existe.
E uma parte da resposta está à vista.
Os partidos tradicionais ainda falam de imigração como se a fronteira política fundamental separasse imigração legal de imigração ilegal. Para uma parte crescente do eleitorado europeu, já não separa.
Quando um eleitor considera que há demasiada imigração, pouco lhe interessa saber se o visto foi corretamente emitido, se o formulário estava preenchido ou se a entrada ocorreu por um posto de fronteira autorizado. A legalidade administrativa não responde à pergunta política que ele está a fazer.
A pergunta é outra: queremos este nível de imigração?
É precisamente aqui que começa o desencontro entre eleitores e partidos tradicionais.
Quando alguém questiona o número de estrangeiros que entra num país e um governante responde que é necessário “combater a imigração ilegal”, pode julgar que está a endurecer o discurso. Na realidade, pode estar simplesmente a fugir ao assunto.
Porque combater a imigração ilegal é fácil.
Em rigor, nem sequer deveria ser uma posição ideológica. Um Estado que estabelece regras de entrada deve fazê-las cumprir. Expulsar quem não tem direito a permanecer, combater redes de tráfico ou controlar fronteiras não constitui uma política migratória. É apenas aquilo que se espera de um Estado.
A verdadeira escolha política começa antes.
Quantas pessoas queremos admitir legalmente? De onde? Para quê? Durante quanto tempo? Segundo que critérios? Deve existir um limite anual? Deve a imigração responder às necessidades definidas pelo Estado ou basta existir alguém disposto a contratar? Deve um país utilizar permanentemente imigração para compensar problemas demográficos? E haverá algum número a partir do qual um governo considere que a........
