menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A abundância que nos sobra

70 0
13.10.2026

Na semana passada, um ex-investigador da Anthropic, Jacob Coxon, sentou-se no The Daily Show e disse a Jon Stewart aquilo que, segundo ele, os construtores desta tecnologia já dão por certo: não haverá empregos. Quase toda a produção passará para as máquinas, e a riqueza que daí vier distribuir-se-á por uma espécie de rendimento universal. Abundância para todos, sem ninguém ter de trabalhar para a ter.

Stewart não aplaudiu. Retorquiu, em substância, que não quereria viver nesse mundo — porque é o trabalho que lhe dá sentido, e uma sociedade que o dispensa não lhe está a oferecer uma libertação, está a tirar-lhe alguma coisa. O profeta trazia o paraíso; o humorista preferiu ficar de fora dele.

Tenho pensado nessa troca desde então, e acho que o humorista viu mais fundo do que o investigador.

Admitamos, por um momento, que a parte do dinheiro tem solução — que se paga um rendimento a toda a gente e o problema material fica resolvido. É uma concessão generosa, e não só porque financiar esta travessia está longe de ser simples, como já mostrei noutro lugar. Um rendimento pago a todos pode repartir riqueza; não reparte necessariamente poder. Quem controla as máquinas continua a decidir, mesmo quando paga a conta de quem já não decide nada. O próprio Coxon reconheceu que essa escolha não pode ficar nas mãos de um pequeno grupo. Mas concedamos aos utópicos a sua premissa mais favorável, porque é quando a concedemos que se vê o que ainda assim sobra. O erro da utopia não está, então, no dinheiro. Está em supor que o trabalho era só isso — um meio de pôr pão na mesa, uma inconveniência que a tecnologia finalmente nos poupa. Não era. Quem já trabalhou uma vida sabe que o salário é a parte menos interessante do que um emprego dá. Dá uma razão para a manhã........

© Observador