A Presidência da República - ressentimento ou entusiasmo
Entramos na fase final das eleições presidenciais de 2026 com dois candidatos que espelham, de forma particularmente clara, a clivagem hoje existente na sociedade portuguesa. Essa divisão, porém, não corresponde à leitura simplista, e muitas vezes oportunista, de um confronto entre direita e esquerda, ou entre socialistas e não socialistas, como André Ventura procura fazer crer. A fratura é de outra natureza: opõe, sobretudo, uma política de moderação, contenção e uma lógica de radicalização, reacionismo e mobilização do descontentamento.
Não existe aqui uma superioridade moral intrínseca entre grupos sociais. O que existe é um projeto político, o do Chega, profundamente personalista e indissociável da figura de André Ventura, que construiu a sua base de apoio através de uma estratégia bem conhecida na história política: a combinação de desinformação, simplificação de problemas complexos e a demonização de grupos específicos, transformados em bodes expiatórios. Trata-se de uma técnica clássica dos movimentos populistas, eficaz na mobilização emocional, mas profundamente corrosiva para a qualidade do debate democrático.
Importa sublinhar um ponto essencial: A maioria dos eleitores atraídos por este discurso não são atores de má-fé. São, em grande medida, vítimas de frustrações reais, de falhas acumuladas do sistema político e de um sentimento legítimo de abandono. São os nossos familiares, vizinhos, colegas de trabalho. Reconhecer isso é condição básica para qualquer análise séria.
Também é evidente que a candidatura de António José Seguro não mobilizou um entusiasmo significativo, nem sequer junto do seu espaço político natural, o Partido Socialista (PS). Mas esse desinteresse não lhe é exclusivo. Nenhuma das principais candidaturas conseguiu gerar verdadeira elevação cívica ou debate estruturante ao longo desta campanha. Pelo contrário, os debates presidenciais ficaram marcados por uma ausência quase total das grandes questões do........
