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O silêncio que mata

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04.02.2026

Era quarta-feira, 28 de janeiro. A tempestade Kristin atingiu o continente português com uma fúria que poucos se lembram. Rajadas de vento que ultrapassaram os 208 quilómetros por hora em Leiria. Antenas literalmente arrancadas das suas estruturas. Torres de muito alta tensão — 61 delas — derrubadas como palitos numa região que de repente ficou mergulhada na escuridão. Naquela madrugada e durante todo o dia 28, o caos tomou conta de Leiria, Coimbra e arredores. Quase dez mil incidências reportadas à Proteção Civil. Mais de 850 mil clientes sem eletricidade no pico do temporal. Sete pessoas mortas — confirmadas até agora — pela queda de estruturas, acidentes rodoviários provocados pela meteorologia extrema e ferimentos causados por estilhaços e destroços voadores.

Mas enquanto as equipas de bombeiros, os paramédicos e a Proteção Civil tentavam coordenar o caos no terreno, havia um problema que ninguém podia ver mas todos sentiam: o SIRESP — o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal — falhou. Não numa única noite. Falhou durante dias, desde o pico da tempestade, com intermitências contínuas e críticas que obrigaram as equipas de resgate a recorrerem a métodos alternativos de comunicação. Rádio analógico. Telemóveis pessoais. Tudo menos o sistema que deveria ser a espinha dorsal de todas as operações de emergência em Portugal.

Hoje, 31 de janeiro, três dias depois, cerca de 200 mil pessoas permanecem sem eletricidade. Mais de 60 concelhos estão sob estado de calamidade. O governo admitiu oficialmente que houve “falhas pontuais e intermitências” na rede SIRESP, mas essa admissão tardia não serve de qualquer utilidade para quem passou noites no escuro, para quem esperou por resgate que demorou a chegar, para quem confiou num sistema que falhou exatamente quando era impossível que falhasse.

E há apenas duas semanas, no lado espanhol da fronteira, um cenário paralelo revelava a mesma vulnerabilidade sistémica.

Um homem ferido caminha sozinho pela escuridão. Seis quilómetros de vias de comboio, completamente sozinho, porque ninguém lhe disse que havia outro comboio descarrilado a poucos metros de distância. O seu nome é Jose María Galán e era apenas um dos 100 passageiros do comboio Alvia 2384. Na tarde de 18 de janeiro, em Adamuz, o comboio Iryo 6189 descarrilou e invadiu a via adjacente. Galán caminhava sozinho naquela escuridão e foi o primeiro a informar as autoridades: “Vinha de outro comboio.” A reação do patrulheiro de Guardia Civil foi reveladora. Disse que havia ficado com “a ideia de que só havia um comboio” e que apenas quando o passageiro lhe comunicou a informação é que perceberam a magnitude real do desastre.

Este detalhe revela o escândalo verdadeiro de Adamuz. Não é a colisão em si — um acidente trágico mas estatisticamente previsível. O escândalo é que, durante a primeira hora crítica depois do impacto, as autoridades operavam no escuro absoluto, sem informações básicas sobre a dimensão da catástrofe. Renfe acreditava que havia apenas “feridos por travagem de emergência” do Alvia. Adif estava num silo diferente de informação. O 112 recebia fragmentos de cada um deles. Só às 20:30 — cinquenta e um minutos depois do impacto inicial às 19:39 — é que os primeiros meios sanitários chegaram ao comboio Alvia. Passageiros reportaram que o auxílio havia demorado “quase uma hora” desde o momento do impacto.

Cinquenta e um minutos de silêncio comunicacional em relação ao 112. Vinte minutos entre o impacto e o primeiro contacto com os centros de emergência. Em emergências reais, o primeiro minuto é crítico. Os primeiros dez minutos definem o resultado. Vinte minutos de escuridão informacional representa uma eternidade em termos de trauma e salvamento de vidas.

Quando se compara com cuidado a tempestade Kristin em Leiria com o acidente de Adamuz em Córdoba, surge uma realidade que é profundamente incómoda: ambos revelam não um defeito ocasional ou uma falha específica, mas sim um padrão estrutural que é sistémico,........

© Observador