O tempo já não está do lado do Kremlin
No passado domingo, os arménios foram às urnas e Nikol Pashinyan, o incumbente e líder do partido pró-ocidental Contrato Cívico, ganhou. Não ganhou aquilo que apresentara como objetivo máximo, uma vez que os dois terços indispensáveis para alterar a Constituição ficaram fora do alcance, mas ganhou com uma maioria absoluta confortável, com mais de vinte pontos de distância sobre a coligação Aliança Arménia de Samvel Karapetyan, o empresário russo-arménio que Moscovo via como o seu cavalo na corrida. O resultado tem uma importância que extravasa as consequências internas, ainda que estas, só por si, justifiquem atenção pela consolidação de um caminho decididamente pró-ocidental por parte da Arménia. O quadro doméstico é, em si mesmo, complexo e incompleto, mas o sinal que sai de Erevan, em conjunto com o que vem a sair, há meses e há anos, de capitais que durante décadas Moscovo considerou suas, é claro. A posição da Rússia como grande potência regional, e como grande potência tout court, está em erosão acelerada, e a vitória de Pashinyan é a manifestação mais recente desse processo.
Pashinyan chegou ao poder em 2018 a prometer desmantelar o sistema oligárquico pós-soviético e tem governado, desde então, com uma orientação cada vez mais explicitamente ocidental. Suspendeu a participação da Arménia na Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), iniciou o processo formal de candidatura à União Europeia e ao longo dos últimos dois anos construiu uma rede de parcerias com Washington e com Bruxelas que cada vez mais declaradamente visa substituir o papel que Moscovo desempenhou durante décadas.
Mas se é verdade que esta preferência já podia ser encontrada nos primeiros anos de Pashinyan no poder, é também verdade que nos últimos quatro anos conhecemos uma aceleração significativa deste reposicionamento histórico. A explicação está na forma como, em 2020 e novamente, e de forma mais definitiva, em 2023, o Azerbaijão lançou a sua ofensiva final na região de Nagorno-Karabakh, que resultou no êxodo de mais de cem mil arménios. Os supostos peacekeepers russos no terreno, destacados em grande medida como garantia de segurança para o seu velho aliado em face do seu maior vizinho, limitaram-se a observar. A Rússia, cujo foco estava na altura, como hoje, quase exclusivamente na ofensiva na Ucrânia, foi incapaz de montar qualquer tipo de resistência, revelando-se indisponível para auxiliar um membro da CSTO, uma organização que, nominalmente, garante a defesa dos seus membros em caso de ataque. Os azeris, corretamente, apostaram que a Rússia seria incapaz de dividir as suas atenções entre a Ucrânia e o Cáucaso e que, por isso, se manteria fora da disputa. As subsequentes conversações de paz foram realizadas sem mediação russa, à semelhança do que aconteceu nas disputas fronteiriças entre o Quirguistão e o Tajiquistão em 2022, ilustrando a profunda reorganização geopolítica em curso na região.
Durante........
